terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Nutrição e Felicidade







Sabia que, existem inúmeros factores que podem condicionar o nosso bem estar e o nosso humor? E que a nutrição é claramente um deles?

Todos nós reconhecemos que de uma maneira ou de outra a comida está associada às nossas emoções, positivas e negativas; não será por acaso que culturalmente celebramos à volta da mesa ou vingamo-nos na comida como um refúgio de uma mau momento, de um desquilíbrio emocional.
E o contrário? Será que a desnutrição poderá estar na origem de desequilíbrios emocionais e determinar o nosso humor? É, parece que sim!

Vejamos, a Serotonina é uma hormona essencial para regular o nosso humor, bem estar e apetite. Chamemos-lhe a hormona da Felicidade; como a podemos regular?
Bom, entre outras, existem duas formas de poder aumentar a sua concentração. A via mais eficaz e duradoura é pela ingestão de fontes ricas em triptofano, um aminoácido. 
E onde se encontram estas fontes ricas? Por exemplo, no frango, peru, marisco, etc, acredite que tem boas hipóteses de se sentir mais feliz!

Mas, porque estas coisas da alimentação são mesmo assim e às vezes não nos facilitam a vida, existe uma outra forma de aumentar a serotonina, uma forma que aparentemente nos deixa mais saciados e que melhora o momento alimentar: os famosos hidratos de carbono! 

No entanto e apesar de ao ingerir estes componentes haver um aumento dos níveis de serotonina, esta elevação será meramente temporária e rapidamente voltaremos a sentir fome e uma enorme vontade de voltar a comer pão, massas, bolos e bolachas!
Lembra-se da velha história da hora do lobo e da fome incontrolável? Se calhar está dentro deste padrão com potencial défice de triptofano e serotonina.

Deixo-lhe mais uma pista para esta hormona da felicidade: se tiver exposição regular numa base diária, a luz solar estimula a produção de serotonina. 
Afinal, sempre parece haver por aí  algum fundamento quando muitos se sentem mais depressivos e em baixo em dias de chuva...


Aqui está mais uma razão pela qual gostamos tanto de sol!


Júlio de Castro Soares
Nutricionista


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A "bolha actimel" e o despir de fardas no processo terapêutico...






“Confesso que mesmo tendo sido arrastado pela minha mãe (que nunca foi general porque com certeza porque a altura não se media pela altivez), isto não foi nada do que esperava. Tinha uma ideia completamente diferente…até pelo que se diz por aí…o que as pessoas acham. Ah e tal vinha falar…falar…pfffff…achava eu. Isto criou na minha cabeça, aqui dentro uma área…uma zona onde pode haver dúvidas, criticas, coisas assim difíceis outras boas, às vezes até tristeza e zanga (talvez muitas vezes). Falar para quê?? Achava eu…e hoje penso falar sim, falar para criar essa zona ou melhor para deixar que essa zona exista e não andar a fingir para não pensar, para não sentir! Achei que só viria uma vez…aquela vez…a primeira…mas tenho de admitir hoje (coisa difícil antes), que a minha arrogância das primeiras consultas escondia o reconhecer que…eu precisava de aceitar e dar espaço a esta área de me pensar e sentir dentro de mim! (…) Sei que hoje não vou sair daqui com uma “bolha actimel”, a achar que este espaço dentro de mim é garantido e nada o atingirá ou agitará…Vão acontecer coisas, vou sentir coisas, ficar confuso e sei lá…tudo isso. Acho que entrei aqui como um soldado de pedra e saio hoje a sentir que não preciso da farda para ser alguém nem para esconder nada … saio Eu esse Eu à minha maneira e que descobri aqui!”


O L. militar de “corpo e alma” (como dizia), descreve assim o seu percurso terapêutico de dois anos, com um inicio que parecia marcar passo numa marcha compassada e reta (pesada e internamente dessintónica do seu ritmo), mas um fim harmónico, confiante e realista. De facto em muitos casos a terapia obriga ao “despir” de uma farda (capa), ao partir (esculpir) do que parece apenas um bloco de pedra…obriga a encontrar esse espaço de insight para pensar e compreender a dor, transformar e crescer emocionalmente numa relação terapêutica que deixe refletir fiel e afetivamente a imagem de cada sujeito. O fim que nem sempre se garante como ponto final, e ao qual tantas vezes se acrescentam “clandestinamente” outros dois pontos que garantam a continuidade de um trabalho que é feito dentro de cada sujeito, é assim muito para além do desaparecimento ou alivio dos motivos ou sintomas iniciais. É como diz o L. conhecer-se na dúvida, na crítica, na dor, na alegria, na vicissitude de se ser…no Eu que sempre lá esteve mas precisava de ganhar “uma zona” para se fazer ouvir e sentir. E isto é tão distante do que poderia ser uma “bolha actimel” que não sabendo a iogurte nos envolve nos amargos da vida, nos envolve ciclicamente num padrão de fuga para a frente, para não pensar, para não se olhar e para não se sentir. Não estaria inicialmente o L. numa romanceada e ilusória “bolha actimel” como tantas outras pessoas??


O fim não o é na verdade; pois a história de cada paciente no seu processo de crescimento não se encerra naqueles últimos 50 minutos…continuará e crescerá dentro de cada sujeito à medida que as vicissitudes da vida, dos contextos, das pessoas…

O Canto da Psicologia
Drª Joana Cloetens

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Filmando Dislexia...






No seguimento do nosso último texto, veja este pequeno filme e perceba ainda mais a necessidade de uma despistagem precoce neste tipo de dificuldade!!

O Canto da Psicologia
www.canto-psicologia.com


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Esta coisa estranha chamada D(p)islexia...





A avaliação psicológica, de um modo geral, é um processo de investigação sobre o funcionamento mental do sujeito. O funcionamento mental funciona como uma variável continua em constante mutação. Neste sentido, a avaliação psicológica transforma a continuidade da mente numa variável discreta, constituindo-se assim, enquanto corte no funcionamento mental do sujeito.

Existe uma certa analogia que se pode tecer entre a avaliação psicológica e as análises médicas em geral. Ambas servem o propósito de investigar, ambas produzem resultados diferentes consoante a condição actual do sujeito e ambas funcionam de acordo com critérios estatísticos.
A aplicação do mesmo teste a uma amostra alargada de uma dada população permite-nos construir um nível de 'normalidade'; como consequência podemos também afirmar se o sujeito se encontra abaixo, muito abaixo, acima, ou muito acima do expectável para a sua faixa etária.

A avaliação da dislexia, por exemplo, funciona de acordo com os pressupostos da avaliação psicológica no geral, tendo por objectivo a investigação. E para que seja possível estabelecer este diagnóstico é necessário que se entenda o que devemos procurar.

Falemos agora um pouco deste bicho chamado "dislexia".
A palavra dislexia deriva do grego Δυσλεξία, referindo-se a dificuldades ou a um distúrbio do processo de leitura. Neste sentido, a avaliação da dislexia deve encontrar evidência de um défice significativo na fluência e na precisão de leitura. É essencial que se obtenha por isso um nível de leitura, ou seja, devemos verificar onde se posiciona o nível da criança/adolescente/adulto, em relação a outros indivíduos da mesma faixa etária, e por tanto, nesse sentido, os testes aplicados devem ser padronizados. Encontrado o défice de leitura é necessário que se entenda o motivo do distúrbio.

Existem múltiplos factores que intervêm no processo de leitura, sendo essencial que se identifiquem quais os factores que se encontram comprometidos no sujeito, no sentido de propor uma intervenção que seja adequada.

Uma possibilidade é que o défice de leitura se deva a uma dificuldade de organização perceptiva ou de lateralização. Neste contexto o que promove a dificuldade leitura será uma distúrbio na capacidade de organizar perceptivamente o estímulo gráfico (grafema). Aqui são relativamente frequentes trocas ou substituições de letras com base na semelhança gráfica (e.g. d/p, q/d) e não na semelhança de som. Estaríamos na presença de uma Dislexia Diseidética. Uma vez que esta é uma possível explicação para o défice de leitura é necessário que sejam aplicados testes padronizados que avaliem as capacidades de organização perceptiva, coordenação mão-olho e lateralidade.

Outra possibilidade é que a dificuldade de leitura seja explicada por intervenção de um défice cognitivo. É preciso que se entenda se o défice de leitura é produto de uma dificuldade de atenção (em termos de qualidade ou de manutenção), especificamente de atenção visual, ou de memória, ou de outro qualquer tipo de função cognitiva.Se for encontrada evidência de debilidade cognitiva, regra geral, não se considera o défice de leitura como sendo produto de uma dislexia.
Este último ponto, no entanto, é controverso. Em parte porque por vezes existe um quadro de co-morbilidade entre debilidade cognitiva e dislexia, e por outro lado porque os critérios de diagnóstico da CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade) e DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico), são pouco específicos quanto à origem do défice de leitura; pelo que, no contexto deste manuais, apenas interessa o problema manifesto, isto é, o défice de leitura propriamente dito.

Não obstante, a avaliação das capacidades cognitivas do sujeito dislexico é sempre fundamental. Não só porque permite investigar a origem das dificuldades de leitura, mas também porque esperamos que exista um perfil cognitivo típico da dislexia (QI's normais ou superiores à média, QI verbal inferior ao QI não-verbal, capacidades espaciais > conceptualização verbal > processamento sequencial).

De um modo geral, consideramos a dislexia como produto de uma dificuldade de consciência fonológica (dislexia disfonética). Assim, mais uma vez será necessário que sejam avaliadas as capacidades de consciência fonológica, recorrendo a testes padronizados.A aplicação de uma bateria de testes que tem por objectivo o diagnóstico e o tipo de intervenção mais adequado é fundamental para que o potencial de aprendizagem seja reposto.


Dr. Fábio Mateus
O Canto da Psicologia


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Mãe, confia em mim, vai correr tudo bem...






“Mãe, confia em mim, vai correr tudo bem! Eu estou bem, eu sei a batalha que tenho pela frente mas, do alto dos meus baixos 18 anos penso, o que é que eu tenho a perder? Se calhar por isso, pela minha inconsciente juventude e sede de vida, pela força que vem sabe-se lá de onde, é que enfrento este cancro, não como o bicho mau de que tanto se fala, mas como o bicho bom que me vai ensinar a ser mais e melhor.

Mas tu não, mãe! Tu tens tudo a perder! Tens a perder o fôlego, tens a perder cada pedaço do teu ser, tens a perder o que te faz acordar de manhã e querer enfrentar mais um dia, tens a perder o fruto de um amor imenso, tens a perder tudo que tens na vida, a tua única e amada filha!

Podes chorar, não precisas de te esconder de mim. Podes falar ao pé de mim sobre o que vais sabendo sobre a minha doença. Sobre o pouco tempo de vida que os médicos dizem que posso ter… e que eu sei que é verdade, mas em que opto por viver como se não o soubesse. Podes falar com os meus amigos à vontade, eles, agora, fazem parte da tua família, fazem parte do pelotão que comigo combate nesta guerra desleal. Se eu penso positivo, se eu estou tão envolvida com a cura e “entretida” entre sacos de quimioterapia, períodos de sonolência, períodos de melhoras em que tento sugar todo o tutano do mundo… tu só tens pela frente o medo de perder o melhor de ti! Como é que vais lidar com os sentimentos de medo, amor, culpa, raiva, tristeza, dor, angústia e morte, que te assolam a mente a cada segundo de respiração? Acreditar para mim é mais fácil, mal tenho tempo para pensar, o relógio do tempo passa tão depressa e envolve tantos episódios, dos bons e dos maus, dos que surpreendem e dos que assustam, que nem me apercebo que pode correr mal. Para ti, por mais que seja o que mais queres, acreditar é um esforço, uma coisa que quem foi atropelada assim de repente com a notícia de poder perder o coração que tem fora do seu corpo, tem de se forçar a fazer todos os dias.

Não tens de ser a super mulher, a que conduz todo este comboio cheio de carruagens sozinha, basta seres a super mãe que tens sido até agora, a que não se importa de falhar, a que se permite a chorar mesmo que seja à minha frente, a que pode partilhar comigo os receios, as preocupações, todas as “galinhices” de mãe… e a que pode pedir ajuda para caminhar!

Quando eu estiver boa, quero que tu também estejas! Quero que estejas preparada para comemorar comigo esta taça da champions league da vida! Quero que consigas saborear, sem mais medos, sem estares sempre no sobressalto em que agora te sinto.

Lembras-te do dia em que tivemos a notícia…a Drª Sónia esteve lá, foi ela que me ajudou a ver a luz ao fundo do túnel, a manter o meu sorriso e a minha confiança e é ela que está presente cada vez que me sinto a quebrar… Acho que devias também encontrar o teu porto seguro, aquela que te ajudará a desvendar os segredos, a trabalhar os teus medos e a olhar para o futuro com olhos de quero mais! Sim, mãe, uma Psicóloga! Vais ver que te vais sentir melhor! E eu preciso de ti melhor!”


Sofia, 18 anos, doente oncológica


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Homem Irracional




A natureza instintiva do Homem aparece reflectida num conjunto de fenómenos sociais, económicos, políticos, culturais que têm vindo a marcar a evolução da espécie. O século XXI é paradigmático deste paradoxo fundamental entre o homem enquanto ser pensante, dotado de ferramentas intelectuais que utiliza ao serviço da produção de recursos que sustentem e promovam o seu crescimento, e, simultaneamente, provido de um ímpeto destrutivo, pulsional, que lhe permite utilizar perversamente o conhecimento como forma de ataque e de aniquilação.
O que tem sucedido com o sistema ecológico é paradigmático disso mesmo, embora pudéssemos evocar outros tantos fenómenos onde esta profunda contradição surge espelhada. Os conflitos no médio-oriente, as tragédias com os refugiados no mediterrâneo, as ideologias xenofóbicas que sustentam atentados como aquele sucedido em Oslo, até à falência de alguns dos sistemas económicos do ocidente, são representativos de uma natureza animal, impulsiva e assoladora do homem.

Não sabemos se inspirado por algum destes fenómenos, mas inegavelmente marcado pela conjuntura em que é realizado, surge o novo filme de Woody Allen – Homem Irracional. Este que, tal como de costume, traz até à tela as preocupações existenciais que balizam o seu trabalho, colocando em cena os aspectos mais ocultos da natureza humana. Tomando como pano de fundo a crise existencial de um professor de filosofia, leva-nos a percorrer ao longo do filme os lados mais perdidos e desorganizados do psiquismo.

Abbe (Joaquin Phoenix) veste a pele de um homem profundamente deprimido, incapaz de obter prazer ou de encontrar um sentido para a sua vida. As relações surgem esvaziadas de significado, encontrando no álcool o refúgio possível. Neste percurso diletante com que se faz mover pela sua realidade, é surpreendido por um encontro com estranhos, que desperta em si um ímpeto de agir em prole da justiça, capaz de mobilizá-lo e retirá-lo do afundamento depressivo em que se encontra. A partir de aqui, Abbe enceta um plano no qual é capaz de reinvestir a sua energia, encontrando o prazer outrora perdido,  embora levando ao extremo o seu propósito, acabando por culminar num crime. Um crime que lhe traz uma omnipotência desmedida, capaz de distorcer a realidade, os valores e tudo o que representava as suas convicções, agora visto em perspectiva pelas lentes distorcidas de um olhar enlouquecido, movido por um desejo pervertido de dar rumo à sua existência. Ética, moral, perigo, dor, sofrimento passam a constituir um plano secundarizante na vida de Abbe, que toma a acção sem medir consequências.

Observar o comportamento de Abbe é perceber o quanto a sua incapacidade de encontrar um devir para a sua história, aliado a um estar sem-lugar permanente, o foi conduzindo a uma profunda degradação de si, ora de forma mais silenciada e perdida, capaz de despertar empatia ao outro, ora elevando-o a um estado de loucura, que acabou por conduzi-lo à sua própria morte. Com efeito, este lado destrutivo, sendo vivenciado numa faceta mais depressiva ou na espiral de delírio que foi emergindo, não deixa de retratar os lados mais sombrios do homem, capazes de ultrapassar todos os limites, numa esfera onde a ética, a moral ou a própria realidade parecem perder significado. Novamente, neste enredo, Woody Allen a revelar a sua extrema sensibilidade de questionar a natureza humana.

O Canto da Psicologia,

Dr.ª Joana Alves Ferreira

As pessoas não se aceitam como são?

Num momento em que as questões estéticas constituem uma questão central na sociedade contemporânea, importa pensar se verdadeiramente as pessoas se aceitam como são e o que leva a que a procura de um "corpo ideal" se tenha vindo a tornar uma espécie de obsessão do século XXI. 

Sugerimos-lhe que leia o artigo feito pela Dr.ª Débora Água-Doce, do Canto da Psicologia, com o portal Blastingnews.com.