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segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Desmistificando a Saúde Mental...

 


Cada vez mais aceitamos como importante a Saúde Mental e cada vez mais ganhamos tempo e (auto)conhecimento ao pensarmo-nos. Felizmente aumenta o número de pessoas que procura ajuda quando assim o acha e sente importante. A procura não poderá e nem deverá ser apenas baseada nos mitos que, ainda hoje, se fazem acompanhar em alguns pensamentos.

 Procuramos dar a conhecer a (verdadeira) realidade e combater a descriminação que ainda existe na Doença Mental.

 MITO : A doença mental só surge em pessoas com menos capacidades!

Como sabemos as doenças mentais resultam de um conjunto de vários factores como os ambientais, sociais, biológicos e psicológicos. Podemos todos estar sujeitos a uma combinação da doença mental.

 -  MITO: As pessoas com doença mental são violentas!

Na maioria das situações são as pessoas que não são afectadas por psicopatologias que tendem a ter receio das outras que têm a saúde mental comprometida. Contudo, a maioria das pessoas que sofrem de doença mental não são mais violentas do que a restante população.

 MITO A doença mental não afecta qualquer um.

A doença mental poderá afectar qualquer um de nós. É sabido que existem factores de maior ou menor risco, contudo não são exclusivos ao desenvolvimento da psicopatologia.

 MITONão há tratamento para as pessoas com doença mental.

Algumas das psicopatologias podem não ter cura, uma vez que, são de cariz estrutural, contudo podem existir tratamentos. Um dos maiores e mais importante será o acompanhamento psicológico.

 MITO: A psicoterapia é uma perda de tempo.

A psicoterapia é o caminho para o ser humano alcançar maiores níveis de autoconhecimento, autocontrolo, gestão afectiva. Não existe qualquer contraindicação na Psicoterapia.

 



É tempo de pensarmos numa sociedade integrativa para todas as pessoas. Nem sempre compreendemos o Outro e, muitas vezes, por desconhecimento das psicopatologias existentes, rapidamente caímos em rótulos. As pessoas não são categorias e são precisas ser pensadas na sua totalidade e livres de mitos e preconceitos.




Drª Inês Almeida - Alcochete

O Canto da Psicologia



sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Crianças violentas...

 


 

A morte de um jovem de 23 anos à porta de uma discoteca no Porto provocada por outro jovem de 21 anos fez-me pensar neste titulo, escolhido há 2 anos atrás para a 5ª Jornada de estudos do Instituto Psicanalítico da Criança em Paris.

 A agressividade na criança e no jovem pode ser uma chamada de atenção ou uma tentativa de afirmar a sua singularidade, a sua vontade, face às regras e limites impostos pelos adultos (pais, professores, etc). Neste caso estaríamos no registo do simbólico e falaríamos de acting-out, um ato inconsciente que se realiza para um Outro, para poder passar uma mensagem que não se consegue exprimir de outra forma, através da palavra.

 As passagens ao ato, pelo contrário, como parece ser aquela que vitimou Paulo Correia no Porto, escapam ao simbólico, à palavra. Esta noção designa atos violentos, auto ou hetero agressivos e frequentemente impulsivos. A tentativa de encontrar uma causalidade para estes fenómenos de violência é muitas vezes infrutífera pois trata-se de uma irrupção isolada de qualquer tipo de discurso ou diálogo possível. Falamos da violência gratuita que tem como satisfação o simples ato de destruir, de sair de cena, sem causa nem mensagem dirigida a alguém.

 A questão que eu gostaria de abordar, orientada por um texto de Jacques-Alain Miller escrito para a referida jornada de estudos, é como podemos integrar esta violência num discurso simbólico.

 Miller fala de uma posição terapêutica afetuosa e de contra-violência simbólica, em que se tentaria ajudar a criança/jovem a encontrar palavras para expressar a sua agressividade, a (re)construir uma defesa contra eventuais episódios de irrupção da violência, e a reparar um eventual defeito na sua capacidade simbólica.

 Não se trata de impôr um determinado significado ou de corrigir comportamentos através de uma técnica igual para todos, mas de ouvir o que a criança/jovem tem a dizer sobre a sua violência e agressividade, sobre o que a desencadeia, sobre o sofrimento que lhe provoca. Quando esta violência encontra um lugar para ser abordada, pode revelar-se uma força frutífera para a criança.

 J-A Miller alerta-nos para o perigo de ficarmos colados a uma visão determinista da criança/jovem que muitas vezes é veiculada no ambiente familiar, escolar e social desde muito cedo - “agressivo”, “violento”, “destruidor”. Defende igualmente que nem toda a violência é errática e que é necessário respeitar e dar lugar a uma revolta que pode ser saudável, em alguns casos.

 

 

Drª Rafaela Lima

O Canto da Psicologia - Braga


quinta-feira, 15 de julho de 2021

Era uma vez um bebé...

 



Quase toda a gente gosta de bebés, suscitam ternura e não é por acaso, foram “desenhados” com aquelas formas redondas para  atrair, para que possam ser cuidados, visto a sua enorme dependência de outra pessoa para a sua sobrevivência. Dizia o pediatra e psicanalista Donald Winnicott “there's not such a thing as a baby” (“o bebé não existe”), referindo-se exactamente à impossibilidade de um bebé viver sozinho, existindo sim a díade mãe-bebé (ou cuidador-bebé). Contudo este olhar para o bebé, este conhecimento que fomos adquirindo acerca da pessoa humana na sua natureza mais precoce é muito, muito recente e ainda existem muitos mitos e falta de conhecimento. Ainda há poucos anos atrás se faziam intervenções médicas, e algumas cirurgias, a bebés sem qualquer tipo de anestesia porque se acreditava que os bebés recém-nascidos não sentiam dor...  Mesmo a palavra “bebé” é relativamente recente na história da humanidade, segundo Delassus[1] é um vocábulo retirado da lingua inglesa (baby) e pode ser datado de meados do século XIX, mais precisamente de 1842. A palavra infância já existe há mais tempo, oriunda do latim infans que significa aquele que não fala, que não teve acesso à linguagem, embora possamos ver também aqui uma certa conotação negativa no sentido em que é excluido da comunidade humana dos seres que falam.

            Felizmente, os bebés em particular e a infância no geral, começaram a despertar o interesse dos investigadores e o bebé começou a ter um lugar próprio e as suas capacidades poderam ser vistas. O estudo dos bebés atravessa várias disciplinas entre elas, a biologia, a medicina, a antropologia, a pedagogia e a  psicologia teve (e tem tido) também um grande contributo, tendo alguns cientistas começado por observar sistematicamente os seus próprios filhos, abrindo assim portas para novas observações. Pode então surgir uma cultura da infância, muito embora este conhecimento fique muitas vezes fechado em livros e circuitos académicos, dando azo a que persistam alguns mitos e não prevaleça uma verdadeira cultura da infância. A título de curiosidade colocarei aqui algumas perguntas e respostas, que por vezes surgem:

 

-        Quanto vêem os bebés?

            Poucos dias após o nascimento, o recém-nascido é capaz de ver de forma nítida e focada qualquer objecto a uma distância entre os 20 e os 50cm de distância. Quando olha para longe vê uma mancha difusa, uma vez que ainda não tem um controlo bi-ocular e é por isso que por vezes entortam os olhos. Contudo, a partir das 6 semanas já começam a conseguir concentrar-se em distâncias mais longas. E isto não é por acaso, é um “mecanismo anti-stress”! Foca-se no que se encontra perto, e que pode ser muito importante, a mãe, o alimento, etc, e evita o que está longe do seu corpo, que não tem importância para ele e que pode ser ainda muito confuso. Sabe-se ainda que os bebés preferem formas curvas, são sensíveis a padrões e gostam de objectos grandes e iluminados.

 

-        Os bebés sonham?

            Sim, sonham só não sabemos com o quê! Têm até surgido investigações que sugerem que sonham já desde a vida uterina, na barriga da mãe. Sabe-se que sonham através do tipo de sono, o REM,  onde os olhos se movem por detrás das pálpebras fechadas; este é um sono mais leve e os bebés fazem-no em cerca do dobro do tempo dos adultos.

 

-        Os bebés têm consciência de si próprios?

            Esta questão é mais difícil de responder mas tudo leva a crer que o bebé sabe diferenciar-se: sente os limites do seu próprio corpo, situa-se nas relações com os outros (eu social) e tem um elementar conhecimento de si. Alguns estudos que utilizam a interação e imitação precoce, o reflexo em espelhos ou a visualização de vídeos, têm vindo a demonstrar formas elementares de consciência de si, contudo o conhecimento acerca de si próprio pressupõe a interação com o meio ambiente e é um processo longo que acompanha o desenvolvimento. É então um conhecimento que nos acompanha a vida toda e será, aliás, um dos propósitos da psicoterapia: conhece-te a ti mesmo.

 


Drª Maria Portugal - Lisboa

O Canto da Psicologia

 



[1]             - Delassus (1998)  “A natureza do bebé”. Edições Cetop


quinta-feira, 1 de julho de 2021

Até breve Mestre....

 


O mundo da psicanálise , da psiquiatria e da psicologia , hoje, está de luto!

Há uns tempos, ouvi uma frase dita por Bagão Félix numa entrevista a um canal de televisão :

“ A morte é a única certeza que é incerta no tempo”…

Desculpe Professor mas algures, por aqui, a sua imortalidade estava clara para todos nós que fomos seus alunos, e supervisandos! Já o estou a ouvir. “Que arrogância essa!” Talvez assim o seja, mas ainda há pouco mais de ano e meio o ouvi nas Conversas com História com Raquel Varela no Centro Cultural de Belém , exactamente um mês antes  da pandemia nos reduzir à condição mais vulnerável do ser humano! Afinal de contas não controlamos é “porra” nenhuma!! (perdoe-me o calão, mas também sei que isso não o incomodava, nem um pouco, desde que bem usado e contextualizado ;-) )

A sala, para variar, encheu-se!! E eu lá estava nas primeiras filas, porque para mim tem que ser assim, espreitando, de quando em vez pelo ombro, o fantasma que já vinha sendo anunciado do raio do COVID! Porque, agora, era claramente impossível acontecer este evento! Que sorte a minha que fui até lá…

E o Professor gostava de comunicar com o outro, com os outros!! Via-se , pelo brilho do seu olhar ( que a idade não esmoreceu) quando falava do que lhe perguntavam, quando falava de si enquanto Psiquiatra, Psicanalista, Professor , dos seus anos e de todos os começos e recomeços  , das suas experiências no exercer da sua profissão( das quais eu já tinha ouvido falar,  mas ouvi novamente  como a primeira vez). Até quando, o seu aparelho auditivo o tramou e teve que, perante o público mudar a pilha, o Professor  desculpou- se e fê-lo com espontaneidade, simplicidade, assumindo a sua condição humana, neste tempo, naquele tempo que era seu e nosso. E o riso e o aplauso ecoaram por toda a sala. Provavelmente foi o último evento onde esteve presencialmente. Pelo menos meu foi. Voltei a vê-lo num webinar . Mas não foi a mesma coisa!

Desculpe Professor mas algures, por aqui, em mim, a sua imortalidade era inquestionável. Até hoje!

Muito obrigada pelo que nos deu e pelo que nos deixou. A sua obra irá continuar viva ao longo dos tempos para quem, como nós,  abrace este mundo da saúde mental  tão estudado por si.

E, como vê, afinal não é arrogância pensá-lo no mundo da imortalidade…

 

Até breve Professor Coimbra de Matos!

 

Ana de Ornelas

O Canto da Psicologia


quinta-feira, 20 de maio de 2021

Avó, quanto tempo o tempo tem?

 



 

E por vezes as noites duram meses

E por vezes os meses oceanos

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos    E por vezes

 

encontramos de nós em poucos meses

o que a noite nos fez em muitos anos

E por vezes fingimos que lembramos

E por vezes lembramos que por vezes

 

ao tomarmos o gosto aos oceanos

só o sarro das noites      não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos

 

E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se evolam tantos anos

 

David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade'

 

 

Recordo-me com muita saudade de questionar a minha avó sobre a passagem do tempo. Intrigava-me a sua resposta – “quando tiveres 18 anos vais sentir que o tempo passa de uma outra maneira”. Penso que sem se aperceber a minha avó falava de dois tempos, um tempo da infância, onde “nem se dá pelo tempo a passar”, e um tempo adulto, onde “parece que o tempo nos foge das mãos”. Acho que com a sua morte, ainda antes dos meus 18 anos, consegui perceber um pouco melhor o que me queria dizer. Com a sua linguagem própria, e doce, como só os avós conseguem ter (pelo menos assim era a minha) penso ter tido um primeiro contato com o que é a memória das coisas, e a sua função no tempo atual (o inconsciente e o consciente).  Os 18 anos ou a “Matura Idade” leva-nos supostamente para uma outra visão do aqui e do agora, onde o tempo cronológico e o tempo interno nem sempre andam a par e passo. Na infância onde parece haver um relógio parado (quem não se lembra das longas férias grandes?), há também um lugar para a imaginação e criatividade. Em Alice no País das maravilhas, encontramos de uma forma simbólica o que pode ser a ingenuidade da mente infantil e como esta compreende as regras e obrigações sociais de um mundo adulto, representada pela Alice (eternamente criança, porque paralisada no tempo). Por outro lado, a personagem do Coelho Branco, sempre apressado, transporta-nos para o universo das responsabilidades adultas, onde parece nunca “haver tempo para nada”. Curiosamente, esta personagem “rápida como um coelho”, está sempre a correr para não chegar atrasado.

 


A passagem do tempo acaba por ser invariavelmente um dos temas presentes dentro do espaço psicoterapêutico. Digamos que a passagem do tempo, ou a vivência de uma continuidade e a experiência de vida (recordações) são ferramentas essenciais ao trabalho a dois desenvolvido entre paciente e terapeuta, pois o passado está presente na nossa vida atual. Questões como a duração de uma sessão de terapia e da própria terapia, fazem-me reativar a questão “quanto tempo o tempo tem”, e de uma forma mais profunda ainda, do significado do tempo (e lugar) e da permanência das relações dentro de nós. A tolerância à espera – quanto tempo vai durar a terapia? Como sei que o que aqui estamos a fazer vai ficar dentro de mim? – é tanto mais possível quanto a relação se revela de confiança e segura, e também plena de intimidade (mental). De certa forma, penso que no início de uma psicoterapia haverá quase sempre a dúvida de uma “criança”, no sentido da existência de um tempo que parece não passar, ou que parece andar muito devagar. No fim de contas, o processo de transformação interna passa também por aí, pela existência de um tempo e lugar, onde de uma forma simbólica se possa parar o tempo e fazer as ligações necessárias entre o relógio mental e o cronológico. Estar ligado ao presente e ao futuro, não significa perder de vista o tempo passado, mas possivelmente “acertar as horas” e ter um tempo e disponibilidade mental para estar consigo e com um outro de uma forma verdadeira e genuína. E assim, fazendo jus às palavras de Fernando Pessoa “Eu era feliz? Não sei, fui-o outrora agora”.


Drª Ana Cordeiro - Braga

O Canto da Psicologia


quinta-feira, 11 de março de 2021

Ontem não fiz nada de jeito... ou será que fiz, não fazendo?

 


É bom estarmos ativos e, sem dúvida, que constitui um motivo de orgulho, mas é preciso tempo para parar tanto quanto ser produtivo e orgulharmo-nos disso na mesma medida. Não falo só em dormir, férias, diversão, lazer, que são fundamentais, mas falo principalmente de tempo para não fazer nada. Nada mesmo (e não vale olhar para o telemóvel)!

Quando paramos estamos a permitir que as nossas emoções enviem mensagens ao nosso cérebro sobre o nosso estado e, assim, conceder uma oportunidade para avaliar como me estou a sentir; sobre o que me fez feliz durante o dia ou o que me perturbou. Quais as minhas necessidades e como posso satisfazê-las. O que está bem ou mal na minha vida. O que é preciso manter e o que é preciso mudar.

 E porque é que eu tenho de parar para que isto aconteça?”

 Precisamente porque quando estamos envolvidos nas nossas rotinas estamos, na maioria do tempo, a responder a exigências externas (sejam profissionais, sociais ou de outras pessoas que nos são mais ou menos próximas) e que, por mais que possam fazer parte da nossa vivência em sociedade e nos tragam benefícios diretos ou indiretos, podem desviar-nos (mesmo sem nos apercebermos) das nossas próprias necessidades.

Há uma diferença entre produzir algo em função da satisfação do outro e produzir algo em função da nossa própria satisfação e é preciso parar para a distinguirmos de forma clara.

 Quando é que sei que estou a precisar de parar?”

 Parar deve fazer parte da nossa rotina, tal como o é beber água, alimentarmo-nos, etc. Quando isso não acontece, vou começar a sentir-me cansado, stressado, irritado, entre outros. Ou ainda, o nosso corpo irá obrigar-nos a baixar o ritmo através de uma doença, uma gripe por exemplo.

 Eu não consigo estar muito tempo sem fazer nada!

 Para além do sentimento de culpa associado aos períodos de inércia porque a sociedade assim o exige, tendemos a evitar esse tempo principalmente porque estar a sós connosco pode gerar desconforto.

 Mas se me vou sentir desconfortável porque razão tenho de parar?”

 De facto, quando nos permitimos parar, surge por vezes a sensação de nos sentirmos perdidos, desesperados ou um sentimento de vazio (que serão tão mais intensos quanto maior o tempo que passo sem me permitir este espaço) e isto não é fácil de se enfrentar, mas uma vez este estado ultrapassado vão começando a emergir sentimentos mais positivos, mais energia, maior capacidade para criar, mas agora de uma forma mais concordante com os nossos desejos e valores.

Se, por outro lado, tanto o desconforto persistir no tempo, devemos procurar ajuda especializada que nos ajude a amparar esses sentimentos, a reorganizar e a reconstruir ou procurar um novo sentido.

O processo terapêutico é, entre muitos outros elementos, um espaço onde nos é concedido tempo para nós mesmos porque é o que se passa nele (nesse tempo) que nos permite mudar. 

 

 Filipa Noronha - Lisboa

O Canto da Psicologia


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Um acerto com a saudade...

 Estamos longe... Estamos todos tão longe...


Estamos todos longe uns dos outros, e se calhar, não é só consequência desta pandemia.

Claro que, desde Março de 2020, fiquei/ “ficamos” forçados a estar longe de quem gostamos e com quem não vivemos, mas tenho pensado muito no tempo e no que sinto face a este. E cada vez mais me apercebo que sou atropelada por este. E isso tem-me consumido e entristecido. Dou por mim a pensar nas inúmeras coisas que tenho para fazer e na frustração de não dar vazão às mesmas. Isso engloba trabalho, maioritariamente trabalho, e tarefas funcionais de casa; mas depois penso: e as minhas pessoas? Para as minhas pessoas, aquelas que amo e só posso falar por telefone ,sobra tão pouco tempo. E fico num vazio e numa saudade imensa. Saudade, de ter de facto tempo para elas. Aquele tempo tranquilo e genuinamente dedicado. Saudades, muitas saudades de todos. Saudades de não só não os poder realmente ver, como saudades de ter tempo para usufruir de vocês e da vida além do trabalho. Mas já era assim antes da pandemia...

Talvez a pandemia nos obrigue a pensar mais vezes nisto, no que é estar distante, no que é estar só, e no sentir só. Talvez a pandemia possa ser  o caminho para, um dia, sabermos valorizar o que de facto importa; para mim, tudo o que envolve amor e, claro, as minhas pessoas.

Drª Margarida Espanca - Lisboa

O Canto da Psicologia

 


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A mãe, o pai e o bebé...

 


A parentalidade surge em vários contextos e sobre diferentes modalidades, sendo transversalmente o processo pelo qual os pais passam para se tornarem pais (essencialmente falamos da reestruturação, tanto em termos sociais, como afetivos, que permite aos pais poderem estar disponíveis para responder às diferentes necessidades dos seus bebés). Apesar de ao longo dos últimos tempos tanto os papeis materno, como paterno, se terem vindo a alterar e modificar, a função familiar mantém-se a mesma. É na família central e nuclear que se permite que os bebés se desenvolvem intelectual, afetiva e socialmente. É para isto necessário, existir uma “casa interna”, poder e conseguir ser contentor, um meio que facilitador e que é uma base segura para o bebé. No fundo, todo este processo acarreta um conjunto enorme de desafios, aprendizagens, medos, inseguranças, momentos de alegria e felicidade. É uma transição que poderá ter um forte impacto psicológico.

São 9 meses de descobertas, de fantasias, de idealizações, de medos, de inseguranças, de crescimento… é um caminho que se percorre com a expectativa do nascimento muito presente, o momento em que se vai conhecer, na realidade, o bebé.

Mães e pais vivem estes 9 meses de forma diferente. Enquanto as mães são naturalmente foco de maior atenção, pelas evidentes transformações hormonais, físicas, psicológicas a que vão sendo sujeitas pelo processo natural da gravidez, não nos podemos esquecer da importância determinante que os pais têm durante todo este caminho.

            Se este processo já traz consigo, inerentemente, um conjunto de medos, por vezes, inimagináveis, onde fica o espaço para a vivência deste processo em alturas como esta?

            As restrições impostas pela situação que vivemos actualmente têm condicionado, de inúmeras formas, a vivência familiar da gravidez. Tem-se visto e ouvido imensamente falar da importância da saúde mental das grávidas (sendo este um assunto pré-pandemia já de extrema importância mas, infelizmente, nem sempre considerado –tendemos a assumir que a gravidez é sempre feita de arco-íris e unicórnios), da importância de diminuir os níveis de stress e de ansiedade derivados das várias alterações no processo de acompanhamento da gravidez e do necessário distanciamento físico e social que a atualidade nos impõe e que conduz a que a grávida ou pré-mamã fique também mais só. O acompanhamento às consultas ficou mais condicionado, a presença do pai passa a ser impedida nas ecografias, nas consultas de acompanhamento e até no nascimento!

            Como podem os recém – papás integrar mais um desafio? Quais os impactos que estas alterações acarretam em termos de saúde mental (da mãe, do bebé e do pai!)? Como aceitar esta realidade que impede o normal enamoramento e nascimento da triangulação?

Ainda é muito cedo para de uma maneira concreta e estatisticamente consistente poder, a partir de estudos, ter ideia do impacto de um tempo como este no nascimento de um casal parental e, sobretudo, no universo mental de um bebé. Resta-nos o amor! E esta capacidade infinita de amar que consegue proporcionar a um recém nascido as condições ideais para se "fazer gente"...

Entretanto, vamos, enquanto O Canto da Psicologia, estando sempre por aqui se assim for necessário.


Drª Inês Lamares - Alcochete/Lisboa

O Canto da Psicologia




quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A fobia no pós-pandemia...

 



Pandemias, epidemias e catástrofes naturais têm tendência a propagar medos e a alterar comportamentos. Quanto maior for o evento stressante, maior será o seu impacto e as suas consequências. A saúde mental deve ser uma das preocupações centrais desta pandemia. Existem pessoas com predisposição psicológica, que se encontram mais vulneráveis, que podem desenvolver perturbações mentais, mas, na realidade, ninguém está ileso de as desenvolver.

Esta pandemia tem alterado a rotina das pessoas de uma maneira inesperada e que irá gerar consequências mesmo após esta situação estar controlada. O confinamento social, o contágio do vírus, o número de óbitos, podem gerar sequelas psicológicas, como as fobias. Destas, três são as mais frequentes:
 
Fobia de doença: é a fobia do contágio. É o medo de ficar doente e morrer, de contagiar familiares e amigos. Pode gerar sintomas físicos, mas gera principalmente crises de ansiedade e ataques de pânico.

 
Ataques de Pânico: é uma situação súbita de medo intenso associado a sintomas como palpitaçõessuores, tremores, falta de ar, dormência ou sensação de que está prestes a acontecer qualquer coisa má. Nesta pandemia, o medo mais frequente é o medo da morte e da doença, tanto da própria pessoa, como relativo a um familiar.


Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): são crises recorrentes de compulsões que se tornam obsessivas no dia a dia das pessoas. As obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes que provocam na pessoa ansiedade ou mal-estar. A pessoa sente a necessidade de ignorar ou suprimir a ansiedade causada por essas obsessões através de pensamentos, rotinas ou atividades repetitivas denominadas de compulsões ou rituais.

Com a pandemia, todos temos comportamentos diários repetitivos, como lavar as mãos, usar frequentemente o álcool desinfetante, desinfetar produtos que trazemos para casa, entre outros. Estes comportamentos quando associados a este evento stressante podem desenvolver uma TOC ou agravar quando já existe.

 

E a Fobia Social? Algumas pessoas com este diagnóstico sentiram os seus sintomas diminuídos aquando da quarentena obrigatória, não estando expostas ao seu maior medo, o medo da interação social, da avaliação do outro, da exposição ao outro. Mas há quem tenha desenvolvido um quadro de solidão e tristeza profunda em consequência do isolamento social e que pode tornar ainda mais dificil um regresso a esta nova realidade, com medos mais intensos e por consequência uma maior ansiedade.

 

Falar sobre os medos alivia a ansiedade e contribui para um bem-estar psicológico, necessário para superar esta pandemia. Estes medos e a consequente ansiedade podem surgir em adultos, mas também nas crianças e nos adolescentes. Não hesite em procurar a ajuda de um Psicoterapeuta de modo a evitar um sofrimento prolongado.

 

Drª Irina Morgado - Setúbal

O Canto da Psicologia

 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Aprender a viver com um sintoma - ecos de uma entrevista ao escritor João Tordo...




Há uns tempos, ao regressar a casa do trabalho, ouvi na rádio uma entrevista que me fez refletir sobre como escolhemos uma profissão, ou muitas vezes, como somos escolhidos por ela, mediante as nossas vivências. Era uma entrevista ao escritor João Tordo, formado em filosofia, jornalista, guionista e autor de 13 romances publicados aos 44 anos de idade.
O que me chamou a atenção foi tanto o curto resumo que fez da sua primeira infância, que descreveu como não tendo sido “um lugar particularmente harmonioso”; como a gaguez, que o acompanhou desde criança e que, segundo ele, o ajudou a ser o que é hoje. Os caminhos mentais que tinha de percorrer para tentar evitar determinada palavra que poderia desencadear um episódio de gaguez, as narrativas alternativas que construía e o vocabulário que ia descobrindo neste processo, foram, segundo o Autor, uma tentativa de ordenar o caos de um “miúdo perdido” através de uma forma de expressão.

O sintoma tem de ser sempre entendido na história pessoal e contexto de cada pessoa.  Como tal, o meu interesse não é analisar a gaguez do João Tordo, até porque não teria legitimidade para isso. O que me pareceu fascinante é a forma como descreve um aprender a viver com o seu sintoma e até colocá-lo ao serviço de uma paixão, e ulteriormente de uma profissão. Freud diria, a propósito deste tema, no texto O Mal-Estar na Civilização (1930), que a atividade profissional proporciona uma satisfação particular quando é escolhida livremente, de modo a possibilitar o uso por sublimação das pulsões não recalcadas. A sublimação será sempre uma história singular, de um sintoma particular e de pulsões que se conseguem ligar a atividades socialmente valorizadas, por vezes logo desde a infância, como se vê neste caso.

Do relato do autor é possível perceber que inventar histórias e palavras novas permitiu-lhe reduzir o mal-estar associado à gaguez (ele fala de vergonha em relação aos pares) e trouxe-lhe também um benefício secundário, oferecendo-lhe as ferramentas para escrever. Parece-me igualmente notável o entusiasmo com que relata o seu primeiro encontro com a leitura e os romances, como género literário, como se esta peça encaixasse na perfeição naquela que era a sua solução criativa e singular para este sintoma. 

Por vezes, é difícil encontrar uma solução mais ou menos harmoniosa que nos permita seguir o nosso caminho, ou o sofrimento que o sintoma traz é demasiado esmagador e paralisante para procurar uma saída sozinho, e nesses momentos é fundamental pedir ajuda.
O trabalho psicoterapêutico oferece um espaço seguro e uma relação na qual se pode encontrar apoiar para descobrir as suas próprias respostas e soluções, construir sublimações e assim, como dizia o escritor João Tordo, ordenar o caos.

Psicologia à parte, resta-me esperar pelo seu novo livro que, a avaliar pelo título, promete ser muito interessante: “Manual de sobrevivência de um Escritor”.





segunda-feira, 20 de julho de 2020

Respirando emoções com e sem máscara...






Aviso: texto carregado de símbolos, metáforas e transposições de uma realidade para outra. Ler com liberdade de pensamento.

Inspirar e expirar. Duas ações intimamente ligadas. Uma seria impossível sem a outra. O processo de respirar contém em si mesmo ambas ações. A primeira para absorvermos o que está ao nosso redor, aproveitando os bons elementos. A segunda considera os elementos que não nos fazem falta e até elementos residuais produzidos por nós, expulsando-os do nosso sistema. Esta dualidade de que falo existe em praticamente todo o lado (o sistema digestivo, por exemplo, trabalha também desta maneira, bem como muitas outras coisas na natureza).

De alguma forma, parece que desde sempre se deu primazia à compreensão destes processos físicos e ao seu mau funcionamento, às suas lacunas ou falhas. O que é compreensível uma vez que se não estivermos a cumprir as funções mais básicas (físicas) não conseguimos simplesmente sobreviver. 
No entanto, pode dizer-se também que o nosso físico está intimamente ligado às nossas emoções. As emoções e todo o nosso conteúdo interno, muitas vezes - para não dizer sempre - têm uma influência elevada e até desconhecida sobre os nossos processos físicos. Tudo isto pode ser olhado à semelhança deste processo da respiração. Permitindo-nos viver e não apenas sobreviver. Mesmo desde antes de nascermos - na gestação - o mesmo se passa. Absorvemos o que está à nossa volta e deitamos cá para fora aquilo que não precisamos ou que nos é nocivo. Este processo repete-se infinitamente até morrermos.

Caros leitores, não levem a mal esta pergunta, mas, se nos foi ensinado a prevenir ou resolver o que não nos faz bem fisicamente, por que razão nos é tão difícil procurar compreensão profissional relativamente ao que nos toca no âmago, emocionalmente

Nestes tempos de pandemia, onde vivemos, a respiração livre está cada vez mais comprometida, seja pelas máscaras que colocamos (na cara e dentro de nós), seja pelo isolamento ou confinamento que fomos obrigados a respirar (sem a possibilidade temporária de inspirar novos  elementos).

Este texto tem então um objetivo muito simples: libertação de máscaras e estereótipos que em nada facilitam a compreensão de um self. Serve para dizer, a quem quer que esteja a ler, que as nossas coisas, aquilo que habita dentro de nós, desde sempre ou novo, pode ser compreendido, processado, transformado e sobretudo consciencializado - processo sobre o qual se debruça grande parte da relação terapêutica (a emergência de conteúdos do inconsciente para o consciente, de forma a poderem ser reconhecidos e trabalhados). É um processo difícil? É. Vale a pena  o esforço? Posso asseguradamente dizer que sim.

O processo psicoterapêutico, se é que alguma vez o foi, já deixou de ser para malucos. No entanto, parece ser apenas em crise que existe a liberdade interna de procurar ajuda profissional neste sentido. Porquê? 
Na minha ótica, o autoconhecimento e o conhecer do nosso mundo inconsciente são das maiores ferramentas que se podem levar para qualquer campo da vida. Porque não?

Numa altura destas em que está a ser difícil respirarmos em liberdade, ter um espaço onde podemos livremente respirar, sem máscara dentro de nós, é realmente uma lufada de ar fresco.





terça-feira, 7 de julho de 2020

Retorno aos treinos com ou sem máscara?





Com o retorno aos treinos, muitas pessoas continuam a perguntar se é importante o uso de máscara durante a prática de exercício. Do ponto de vista de controlo da doença, risco de contágio, contenção da disseminação das partículas do vírus, sem dúvida que sim.

Particularmente no decorrer de um treino, com o aumento da frequência cardíaca e frequência ventilatória, a evidência mostra-nos que o uso de máscara acarreta uma diminuição da captação de oxigénio, originando alterações importantes a nível respiratório e cardiovascular. Acrescentando que, também a nível da própria temperatura corporal existem alterações importantes quando há o uso da máscara em esforço. As consequências mais visíveis da utilização de máscara em esforço são o aumento da fadiga, diminuição das trocas gasosas, tonturas, mal-estar, aumento da temperatura corporal e diminuição do rendimento desportivo.

Assim, se pretende voltar a treinar, certifique-se que o seu ginásio cumpre as normas de higiene e segurança de forma a poder voltar aos treinos de forma segura e sem receio de tirar a máscara durante o treino. Cuide-se, cuidando dos outros!

Bons treinos
Hugo Silva




Instagram: hugo_silva_coach
-Licenciatura Educação Física/Especialização Treino Personalizado
-Pós-Graduação em Marketing do Fitness 
-Pós-Graduando em Strength and Conditioning
-Director Técnico ginásio Lisboa Racket Centre