quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Enurese - O xixi que alivia...






Enurese: uma perspetiva além da fisiologia


A enurese infantil é um distúrbio que se caracteriza pela perda involuntária de urina, numa idade em que a criança já deveria ter obtido o controlo dos esfíncteres. A manifestação da enurese ocorre, sobretudo, durante a noite, podendo variar na frequência e na intensidade e amplificando-se quando a criança está exposta a situações de tensão. 
A origem do quadro enurético pode estar relacionado com diversas condições, sejam elas de cariz orgânico-fisiológico ou psicológico. Com efeito, a enurese pode ser um sintoma resultante de diversos fatores predisponentes, de natureza social, psicológica e anatómica, pelo que o seu diagnostico implica, sempre, um rastreio de todos os possíveis fatores desencadeadores. 

Quando nos reportarmos a situações de cariz emocional, as quais surgem frequentemente na clínica, verificamos que este quadro parece emergir como uma expressão indireta da angústia vivenciada pela criança, constituindo-se, não raras vezes, como uma forma de manifestar a sua necessidade de auxílio ou como forma de atrair a atenção dos pais, através deste sintoma. Situações como o nascimento de um irmão ou o divórcio dos pais, são exemplos de fatores que podem fazer despoletar este quadro, no qual a ansiedade e a tensão geradas acabam por ser “descarregadas” pela criança durante o sono.

Trata-se de uma problemática que afeta cerca de 15% das crianças com 5 anos, sendo que, de acordo com um estudo da National Sleep Foundation, cerca de 21% das crianças em idade pré-escolar faz chichi na cama, pelo menos, uma vez por semana. A enurese noturna apresenta, pois, um impacto evidente no comportamento e bem-estar da criança ou do adolescente, sendo simultaneamente uma fonte de stress para a família. Entre as consequências negativas da enurese, encontram-se a baixa auto-estima, o isolamento, e o elevado stress relacionado ao medo de ser ridicularizado pelo grupo de pares. Este quadro acarreta o comprometimento da socialização, pelo que é importante que os pais entendam o caráter involuntário da doença e sejam compreensivos com as crianças, procurando ajuda, nos casos em que este sintoma perdure. 

A psicoterapia tem-se revelado eficaz no trabalho com estas crianças e com as famílias, permitindo uma melhoria do sintoma, mas, sobretudo, dos efeitos colaterais que esta condição implica para todos. 

Entretanto e porque cabe aos pais ajudar a criança a ultrapassar a situação e não transformar estes episódios numa experiência traumatizante, deixamos-lhe por aqui algumas sugestões:
  • Expliquem ao seu filho que há muitas crianças da idade dele que também passam pelo mesmo problema e que conseguem ultrapassá-lo.
  • Limitem a ingestão de líquidos a partir do final da tarde.
  • Deitem a criança sempre à mesma hora e estabeleçam uma rotina que inclua a ida à casa de banho antes de se deitar.
  • Criem com ele e de acordo com as suas rotinas um sistema que o possa ajudar a ter menos momentos "molhados" ;
  • Reconhecer de forma consistente o sucesso de uma noite seca e os convenientes que traz para todos, sempre que isso acontece; afinal de contas ele foi capaz.
  • Que o seu filho participe sempre na logística inerente a estes episódios, por exemplo, que seja ele a tirar a roupa da cama e a colocá-la na máquina de lavar; afinal de contas  o problema é seu e há um trabalho a fazer  para o vencer.



O Canto da Psicologia,
Dr.ª Joana Alves Ferreira



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Este Carnaval, quero ser uma girafa...





“…Quem sou eu?
Digam-me primeiro quem eu sou,
e se eu gostar de ser essa pessoa, eu subo;
senão fico cá em baixo até ser alguém que me agrade...”
Alice não sabe dizer quem é…eu também não me entendo,
tenho tantos tamanhos, todos diferentes num só dia,
é uma coisa que me confunde muito…”

Lewis Caroll, Alice no País das Maravilhas

Conheci em tempos uma menina que num determinado Carnaval e aquando do momento em que os pais lhe perguntaram do que é que ela se queria mascarar, com o seu enorme desejo de explorar e conhecer mais do mundo, responde:

-Este Carnaval quero ser uma girafa!

A mãe, desesperada e a pensar ao mesmo tempo onde é que ia desencantar um fato de girafa, pergunta-lhe:
-Mas porquê uma girafa? (Questionando-se para si própria porque não outro animal qualquer)
Ao que a criança, genuinamente como todas as crianças, lhe responde:

-Porque eu gostava de ser uma girafa. São os animais mais altos da selva. Conseguem ver tudo o que os outros animais não conseguem… achas que podemos adoptar uma girafa?

É um bocadinho isto o Carnaval… aquele dia em que podemos escolher ser quem quisermos, em que podemos escolher a máscara que queremos usar.
Podemos olhar para este dia ou este conjunto de dias como momentos com imensa potencialidade.
No caso dos adultos, na medida em que eles podem, em certa medida, escolher a máscara ou a faceta que querem usar ou ser… no caso das crianças porque naquele dia podem, na realidade concreta do dia-a-dia escolherem ser o que quiserem – sem as tais máscaras que os pais ou as mães lhes vão vestindo no quotidiano.
As crianças, mais do que os adultos, têm acesso a estes momentos, quando estão a brincar ao faz de conta em que a fantasia lhes permite serem princesas ou príncipes, dragões, tigres ou leões, ou quem sabe, unicórnios…

Nós adultos, temos isto de outra maneira… temos isto naquilo que somos, consciente ou inconscientemente no nosso dia-a-dia. Temos isto quando colocamos as nossas máscaras, porque estamos em contextos diferentes, porque temos diferentes estados de humor, porque temos diferentes papéis, porque nos relacionamos com diferentes pessoas… mas estas máscaras, muitas vezes, surgem-nos pela necessidade (real ou da fantasia) de que temos de ser, ou de que temos de nos proteger, ou que temos de nos defender, ou corresponder, ou qualquer outra coisa… e às vezes, tal como a Alice, ficamos baralhados com os tantos tamanhos que temos ao longo de um mesmo dia.

Podemos olhar para o carnaval como o espaço onde os adultos se libertam de algumas das suas máscaras e o momento em que podem dar uso à fantasia e para as crianças, o momento em que podem aliar a fantasia à realidade…



Drª Inês Lamares
O Canto da Psicologia




quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A música de Henry ou, os efeitos da Música na doença de Alzheimer...




A doença de Alzheimer, a forma mais conhecida de demência, é uma doença neurodegenerativa caracterizada pela deterioração de diversas funções cognitivas, como a memória, raciocínio ou comportamento. Sendo uma doença progressiva, os seus sintomas desenvolvem-se gradualmente ao longo dos anos, piorando com o passar do tempo e interferindo de forma significativa nas tarefas do quotidiano, acabando por conduzir a uma situação de dependência total e, finalmente, à morte – segundo o ranking de 2016 da Direção-Geral da Saúde, a doença de Alzheimer representava a terceira principal causa de morte prematura em Portugal. Não existe ainda uma cura para esta doença, sendo que a esperança média de vida se situa nos oito anos após a deteção dos primeiros sintomas (variando entre 3 a 20 anos, dependendo da idade e condição de saúde). Ainda assim, apesar de o seu avanço ser irreversível, é possível recorrer a certas formas de tratamento que permitem abrandar a sua progressão e melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes. 

Uma das formas mais revolucionárias e impactantes de terapia pode ser levada a cabo através da música. Na doença de Alzheimer, bem como em diferentes tipos de demência, a memória musical permanece surpreendentemente robusta e bem preservada. Num estudo recentemente publicado no jornal Brain, um grupo de investigadores verificou que as regiões cerebrais responsáveis por codificar a memória musical em pacientes de Alzheimer se encontravam num estado significativamente menos avançado de degeneração, comparativamente às restantes áreas do cérebro. Apesar de a investigação nesta área se encontrar ainda numa fase inicial, a capacidade da música para desbloquear memórias e outras capacidades cognitivas em casos de Alzheimer tornou-se numa forte arma da neurologia, bem como uma inquestionável fonte de conforto para muitas pessoas com esta devastadora doença.

 O poderoso efeito que a música tem em pacientes com demência pode ser explicado de duas formas. Por um lado, devido ao seu conteúdo emocional, a música pode despertar algumas das memórias mais poderosas que possuímos – as memórias emocionais – sendo que este tipo de memórias tem a melhor hipótese de emergir em pacientes de Alzheimer. Para além disso, através da associação da música às atividades do quotidiano, os pacientes poderão desenvolver a capacidade de evocar a memória dessas mesmas atividades, melhorando as suas capacidades cognitivas. Por outro lado, ao aprendermos música, armazenamos esse conhecimento como memória de processamento – o tipo de memória associada a atividades rotineiras. Uma vez que a demência destrói em primeiro lugar as partes do cérebro associadas com a memória episódica – correspondente a episódios específicos nas nossas vidas –as partes associadas com a memória de processamento permanecem, em grande parte, intactas.

A “Music&Memory” (em português, “Música e Memória”), é uma organização sem fins lucrativos criada nos Estados Unidos que nasceu de uma simples ideia: fazer chegar a música aos lares e instituições de saúde. Com o auxílio de iPods ou leitores de MP3, e em parceria com as famílias e funcionários desses mesmos centros, são criadas listas de música personalizadas para cada indivíduo, possibilitando aos pacientes de Alzheimer, demência e outro tipo de barreiras cognitivas e físicas reconectarem-se com o mundo através das memórias despoletadas pela música. Um estudo levado a cabo em 98 lares de idosos onde este programa foi aplicado, concluiu que a aplicação de um programa de terapia musical personalizada ajudou diretamente na redução do uso de medicação antipsicótica e ansiolítica, resultando igualmente em melhorias nos sintomas de demência em pacientes de Alzheimer ou demências relacionadas. Em 2012, um excerto de um documentário acerca do trabalho desta instituição (Alive Inside: A Story of Music and Memory) tornava-se viral na Internet, atingindo milhões de visualizações por todo o mundo. Contava o fantástico caso de Henry, um dos pacientes de um lar de idosos e do seu fantástico “despertar” ao ouvir algumas das suas músicas favoritas. 

Depois desta leitura, veja e oiça novamente o vídeo...


João Silva
- Mestre em Música pela Escola Superior de Música de Colónia;
-Trompetista e Professor de música e investigador no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade de Évora;
- A realizar o Doutoramento em Música e Musicologia na Universidade de Évora





Nem tudo é um problema...








A maternidade/paternidade presenteia-nos com a riqueza e a beleza de vermos os nossos filhos a crescer. No entanto, não é novidade para todos aqueles e aquelas que são pais e mães que nem tudo são rosas!! 
A passagem de uma fase de desenvolvimento a outra é, ela própria, geradora de ansiedade à criança ou ao jovem. Na maioria das vezes esta ansiedade traduz-se em alterações do comportamento que coloca aos pais e educadores dificuldades e desafios que podem ser mais ou menos desestabilizadores da harmonia familiar, consoante a maior ou menor possibilidade dos adultos para auxiliar a criança/jovem a ultrapassar as suas dificuldades.
O desmame, deixar o quarto (ou a cama) dos pais para ir para o próprio quarto,  a agitação aquando da aquisição da marcha, o desfralde, a entrada no infantário ou na escola, os conflitos com os pares e a relação com os professores, a adolescência com as suas múltiplas transformações (internas e externas), são fases do desenvolvimento normativo causadoras de ansiedade na criança e no jovem que, do ponto de vista do adulto, fica “mais difícil de lidar”. 
Por outro lado, a criança também sofre de stress. Mudanças significativas ou constantes de casa, escola ou país, o excesso de actividades, a vivência de brigas e/ou divórcio dos pais, a mudança de ciclos e a retenção, mortes na família (principalmente pais ou irmãos), ser vítima de rejeição por parte dos colegas, hospitalização e doenças, nascimento de um irmão, troca de professora ou de ama, entre outros, são das principais fontes de stress infantil e que muitas vezes ultrapassam a sua capacidade de adaptação.

Temos observado ao longo da nossa prática clínica, bem como em trabalho desenvolvido numa Creche e Centro de Educação Infantil, que alguns pais preocupam-se com comportamentos dos filhos que são simples manifestações de desenvolvimento ou então ficam “em pânico” sobre como lidar com a criança num determinado momento em que ela própria ou a família passa por uma crise ou mudança significativa, apesar de não haver qualquer sinal de perturbação na criança. Outros, por sua vez, têm um problema grave à frente dos olhos e não estão a dar por ele. 
E de facto, no corre-corre do dia-a-dia e para quem vive os conflitos tão de perto, é muitas vezes difícil discernir se estamos perante padrões normais de alteração do comportamento ou se estamos já perante um sintoma, ou seja, um sinal de sofrimento psíquico na criança ou no jovem que requer uma maior atenção ou mesmo uma intervenção psicoterapêutica. Como discernir? 

De acordo com a teoria psicanalítica, desde bebés vamos adquirindo a capacidade para nos pensarmos a nós mesmos (os nossos sentimentos e pensamentos) bem como ao mundo que nos rodeia (o nosso meio e os acontecimentos à nossa volta), gradualmente e a partir dos cuidados que nos são prestados e da relação com os nossos cuidadores. É esta capacidade que nos permite gerir as emoções fortes, e em particular enfrentar os momentos mais difíceis e que põem à prova a nossa capacidade de lidar com as dificuldades da vida e com os sentimentos mais difíceis. A criança, evidentemente, não tem este “aparelho mental” ainda suficientemente amadurecido para poder tranquilizar-se a si mesma. O sintoma serve-lhe assim para comunicar os sentimentos e emoções que não consegue pôr em palavras, como a confusão, a revolta, a desilusão, a tristeza, a frustração, a insegurança, o medo, etc.
Descartada a possibilidade de causa orgânica os sintomas têm causa emocional e são sempre reveladores de sofrimento psíquico, podendo mesmo chegar a quadros depressivos graves. De um modo geral, as crianças manifestam o seu mal-estar interior através de sintomas diversos. Dores de barriga ou de cabeça, náuseas, agitação, tensão muscular, gaguez, ranger de dentes e surgimento de tiques nervosos são os mais comuns, dentro da sintomatologia de manifestação física. Agressividade, choro fácil, pesadelos ou terrores noturnos, ansiedade, insegurança, dificuldades de relacionamento interpessoal com os colegas, com os pais e/ou com os educadores, mudanças súbitas e constantes de humor, dificuldades de atenção, irritabilidade, dificuldades escolares, são também sintomas muito comuns, manifestados ao nível do comportamento.

Mas existem outros sintomas menos comuns, no entanto mais complexos, que surgem em fases mais tardias e requerem já, inequivocamente, de intervenções especializadas. Entre eles temos a enurese nocturna e a encoprese, atrasos psicomotores, instabilidade psicomotora, inibição psicomotora, perturbações da lateralização, tiques, perturbações do sono (Insónia, perturbação do adormecer ou do curso do sono), perturbações da alimentação (anorexia, vómitos, bulimia, mericismo), perturbações da linguagem (atraso simples, disfasias, mutismo, gaguez).
Estes sintomas mais complexos surgem por vezes na sequência de sintomas mais simples que foram ignorados pelos pais, que procuraram soluções lidando como podiam e sabiam, esperando que passasse ou ainda medicando de acordo com opinião médica (por exemplo, dando calmantes à criança irrequieta/incómoda) só vindo a preocupar-se mais na idade escolar. 

Como vimos, no entanto nem tudo é um problema tão grave que requeira uma intervenção médica ou psicoterapêutica dirigida à criança ou ao jovem. 
Em algumas famílias os “picos de desenvolvimento” pelos quais a criança passa podem gerar verdadeiros dramas familiares, derivados não de um problema na criança mas da dificuldade dos pais/educadores em lidar com a mesma nessas fases. O mesmo acontece quando a criança ou a família passam por uma mudança significativa ou crise. Quando assim é, uma ajuda especializada dirigida aos pais ou aos educadores, para os auxiliar a lidar com a criança nessa situação e a passar por essa fase com maior tranquilidade, é indicada, sob pena de se comprometer o desenvolvimento da mesma ao estigmatizá-la e ao colocar somente nela um problema que na realidade é de todos. 

Nas consultas de Aconselhamento/Orientação Parental, concedemos um olhar “de fora” que ilumina para além do sintoma ou da alteração de comportamento apresentada pela criança/jovem, tranquilizamos os pais, desdramatizamos situações “emperradas”, desfazemos a culpa de ambos os lados (pais e filhos), damos suporte aos pais e às mães para que pensem de um modo diferente o seu papel de auxiliares no desenvolvimento dos filhos, despertando também a sua capacidade de reflexão, ajudamos os pais a compreenderem-se a si mesmos também, a partir das dificuldades que estão a viver com o seu filho.  



Dra. Irene Cardoso
O Canto da Psicologia




quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Pais e filhos no mesmo armário...








... da clareira partiam dois caminhos,
os dois clássicos de todas as histórias de encantos e prodígios:
um asfaltado, cómodo, ladeado de amendoeiras em flor;
o outro, pedregoso e eriçado de espinhos, urtigas e urzes...
         (...)
- És a fada dos dois caminhos?...
- Bem, bem. Deixa-te de lérias - impacientou-se João Sem Medo.
- E, já agora, toma a sério o teu papel de fada e aconselha-me
qual dos caminhos devo seguir: o asfaltado ou o dos pedregulhos? 
- Olha menino - elucidou o contínuo.....o bom caminho conduz à Felicidade.
E o mau, à infelicidade...
- Vou pelo bom caminho, como é costume, claro - resolveu João Sem Medo,
 embora desconfiado de tanta facilidade aparente. - O contrário seria idiota e doentio. 
Entretanto no caminho da Felicidade surge um descabeçado que diz:
- Que a paz e a estupidez sejam contigo. Vens preparado para a operação?
- Que operação? - interrogou João Sem Medo, suspeitoso.
    (...)
- Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva à Felicidade Completa
 sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro:
consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar,
 não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas.
 Segundo e último: trazer nos pés e nas mãos correntes de ouro...
    (...)
- Não, nunca. Então prefiro o outro caminho. 
- Palerma! - lamuriou o guarda ( descabeçado) com os olhos
do peito marejados de lágrimas sinceras.
Vais passar fome, sofrer dias de terror aflito...

Quantas vezes ouvimos a expressão: “está na fase do armário” quando nos referimos a um adolescente? E os pais? Estas mudanças não são só nos adolescentes. Hoje, o nosso desafio, é  colocar pais e filhos dentro do mesmo armário!
A adolescência é uma fase de desenvolvimento complexa e que acarreta um conjunto diversificado de desafios (de diversa natureza: psicológica, física, emocional e social), não só face ao próprio como a todo o sistema de relações – relação com o próprio, relação com os pais, família e relações sociais.
Por um lado, temos as modificações físicas típicas já tão conhecidas nesta fase (as quais variam consoante se trata de uma rapariga ou rapaz), aliadas às competências físicas que se alteram e ao desenvolvimento da maturidade sexual (início da sexualidade e intimidade) regulada pelas hormonas. Além das mudanças físicas que operam num plano concreto e visível temos também aquelas que operam a um plano mais subjectivo – o desejo e vontade de se autonomizar sobre um corpo, simbolicamente até aí, "pertença" dos pais – essencialmente ao nível de tarefas como por exemplo, o vestir, o pentear, por creme, etc.
Esta reestruturação na forma como o adolescente se vê a si também actua na forma como vê os outros, permitindo este processo que se possa ir instalando um outro, de individualização e procura de autonomia nos contextos sociais. O aumento do desejo e da necessidade de exploração de novos ambientes fora do eixo familiar, o querer cada vez maior de pensar sobre e por si próprio anda de mãos dadas com a vontade de tomar decisões e, quando tomamos decisões temos sempre responsabilidade sobre as mesmas. Tal como o João Sem Medo, que escolhe o caminho da infelicidade regulando, ele próprio, a possibilidade de pensar e criar piolhos na cabeça…
O querer crescer, o querer pensar sobre si, o querer caminhar com outros não elimina, contamina ou diminui a necessidade de apoio e suporte familiar, apenas requer que possa existir um espaço contentor e securizante de transformação na expressão destas necessidades e na forma como se espera receber este mesmo apoio (sendo diferente de fases anteriores).
Todas estas mudanças (a par da conquista de uma maior autonomia) até então tão desejadas são fonte de grande ansiedade e insegurança, não só para o jovem – que a passo e passo vai flutuando entre os momentos da pequenez da infância e do jovem que já vai começando a ser capaz de pensar e agir sobre si-, como para os pais – na medida em que todas estas transformações geram movimentos no sistema familiar que requerem, muitas vezes, reorganização parental, do casal e da própria família. De forma transversal demandam, ao longo do tempo, uma reorganização no sistema de ligações (no que se refere aos papeis) como a uma reorganização da comunicação. Inerentemente olhamos para uma dualidade entre a independência e a existência ou estabelecimento de limites consistentes e resultantes da funcionalidade do próprio sistema familiar em momentos anteriores.
Se nos posicionarmos num local e num momento em que a “separação” dos filhos da família nuclear é um objectivo não só muito importante, como arriscaria a dizer essencial, no que se refere à saúde mental dos indivíduos e das famílias, este poderá também estar sujeito a um conjunto de forças ambivalentes muito importantes em que operam vários factores, dos quais: as expectativas dos pais – ou seja, a forma como os pais percepcionam, compreendem e representam as alterações e transformações do adolescente; a reorganização identitária dos pais e, claro, a forma como os próprios pais lidaram com as suas mudanças em adolescentes. Sendo um grande desafio para os pais, neste momento de grandes transformações, poderem recordar a forma como também eles fizeram estas separações enquanto adolescentes.

É essencial que todas estas mudanças possam ser pensadas, compreendidas e elaboradas de forma a poderem ir sendo, passo a passo, integradas nesta identidade que se está cada vez mais a formar e a desenvolver.


Drª Inês Lamares
O Canto da Psicologia




O Homem-Brisa...







O homem-brisa nunca levantou a voz, deslizava de pasteleira sem mãos pela estrada e não havia curva nem contracurva que o vencesse. Queria ser aprendiz de serralheiro, mas foi dar com os ossos a Angola, depois de umas chumbadas na instrução primária, uma guarda ocasional das redes da equipa de futebol lá da terra e uma adolescência de baixo ventre viçoso e ativíssimo, à boa maneira do picha de açúcar que nunca desilude saia amiga por campos e hortas.

O homem-brisa nem sequer se chateou quando levou dois estilhaços no pername numa picada africana e regressou da guerra como quem tinha ido só ali à venda buscar meia onça de tabaco. Casou, foi de mecânico a lapidador de diamantes e não cuspiu no fado quando o último ofício o deixou parcialmente surdo. Encarou tudo com um grão de sal porque a vida é isto mesmo e, antes, fez dois filhos igualmente plácidos de juízo e bons de mãos.

O homem-brisa agarra em tudo o que é tralha para fazer muita coisa a partir de quase nada. De dois carros, fez um. Chamou-lhe Bolinhas.

O homem-brisa também não foi por arrelios quando - já cá aqui com o brotas  no pedaço só para atrapalhar -, me tentou ensinar a pescar e nadar a todo o Tejo, assistindo com a brandura dos justos a todas as minhas falhas miseráveis.

O homem-brisa tinha umas galdinas Levi’s de bombazine à boca de sino que ainda lhe tentei gamar em vão.

O homem-brisa é um homem bonito, do rosto ao coração.

Quando penso no homem-brisa nesta estupidez que tem sido a minha existência, irrito-me e sinto a cabeça a arder por não estamos mais vezes juntos só para conversarmos tudo a dizer pouco.

O homem-brisa foi filho, é irmão, pai e tio. Meu tio. O tio Ernesto.
Nunca levantou a voz. Deve ser feliz.



FILIPE ALEXANDRE DIAS
Jornalista

O CANTO DA PSICOLOGIA




segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Sintomas de fraca ativação dos glúteos..





Sabemos hoje em dia, o papel fundamental que os glúteos representam na nossa saúde muscular e osteo-articular, mas nem sempre associamos alguns sintomas dolorosos ou disfuncionais à inibição destes músculos (diminuição de recrutamento de fibras musculares). Os Glúteos são responsáveis pela retroversão da bacia e flexão, extensão, rotação externa, interna e abdução das coxas, ou seja, são músculos muito importantes em todo mecanismo da cintura pélvica devendo ser extraordinariamente potentes e fortes. Se apresenta algum destes sintomas abaixo referidos, procure um profissional de exercício e saúde que o ajude a perceber se efetivamente tem o glúteo inibido:

- fraca mobilidade da anca;
- dores nas costas;
- dores nos joelhos;
- desequilíbrio dos músculos posteriores das coxas e músculos adutores;
- inflamação da zona pélvica;
- fascite  plantar;
- diminuição de performance em exercícios de potência e explosão

Fazer agachamentos em todos os treinos, não traduz que tenha uma boa ativação dos glúteos. Esteja atento aos sinais.


Bons treinos

Hugo Silva 
Instagram: hugo_silva_coach
Linkedin: http://linkedin.com/in/hugo-silva-1b8295132
-Licenciatura Educação Física/Especialização Treino Personalizado
-Pós-Graduação em Marketing do Fitness 
-Pós-Graduando em Strength and Conditioning
-Director Técnico ginásio Lisboa Racket Centre