sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O lugar das coisas possíveis e impossíveis...






                          

“Tu és a filha, eu sou a mãe; 
- Filha, já te disse que não podes ver esses desenhos à noite, depois tens esses sonhos maus. E agora vais deitar-te (enquanto me tapa).

Continua... a “mãe”
-Agora que estás a dormir vais sonhar que anda um bandido atrás de ti”.

E andamos em voltas pela sala até chegar o momento de novamente acordar.

A psicoterapia com crianças ou o acompanhamento com crianças permite-nos passar por diversos papeis simbólicos, ser diferentes personagens, alguns dos sonhos, outros de uma realidade projectada (uma realidade que raras as vezes é, para a criança, a realidade dela). Nesta dança entre adulto (terapeuta) e criança existem movimentos de diversa natureza, uns provêm da angústia, outros da agressividade, outros mais persecutórios (como os bandidos que nos perseguem nos “sonhos maus”). Afinal de contas há um encontro, literalmente, com bebés, pistolas, carros, soldados, animais ferozes e animais “fofinhos”, com lápis e canetas, com panelas que facilmente passam a baterias, com pratos que servem de pandeiretas...num espaço em que tudo se pode dizer, em que tudo tem potencial de ser compreendido e de eventualmente ser integrado.

É para os pais muito assustador, ou desesperante, trazer ao nosso espaço o seu filho, seja por questões próprias da criança tais como,   não conseguir controlar os esfincteres durante a noite, fazer muitas birras com um dos progenitores, crises de ansiedade quando é deixado na escola, entre outras;  ou até porque alguém na escola levanta uma desconfiança - normalmente com uma palavra que os pais não conseguem identificar - que os põe em estado de alerta e os leva a pedir ajuda ou ainda, por começarem a recear , o que angustia tremendamente os pais, o facto de que também eles possam ser parte do motivo pelo desajustamento do comportamento dos seus filhos. Independentemente dos casos, todos sabemos  que nunca é  fácil deixar um filho com “um técnico” isso significa que pode haver um problema, e se o houver o risco de poder  ser responsável por parte desse problema e ter um dedo a apontar: “não estás a ser bom pai/mãe; não estás a ser suficiente bom”. Ser pai nem sempre é fácil e acarreta um conjunto de desafios que, por diversas vezes, nos colocam em causa e que precisam de poder ser contidos.

Por outro lado,  as crianças precisam apenas de um espaço que possa ser por si só, contentor; em que elas possam fazer “todos os disparates”, as coisas que nem sempre cheiram bem, ou até as coisas que nem sempre são bem vistas (normalmente pelos adultos) sem correr o risco de serem repreendidas, rejeitadas ou abandonadas, libertas do  receio de deixar o pai ou a mãe triste, ou desiludidos; permitindo-se ainda, “pensar”, elaborar ou transformar estas coisas estranhas, que nem sempre têm nome, ou nem sempre são claras, em coisas de mais fácil compreensão através do movimento simples do brincar!

Sendo para os pais aterrador todos estes sentimentos, também o são para as crianças - muitas delas, só agora se estão a autonomizar e a começar a desvendar o lugar delas no mundo das crianças, dos adultos, da família, da escola...ás vezes, este espaço terapêutico é só isto, um sitio seguro, onde se podem pensar e dizer coisas que podem ser  ouvidas ,aceites, vistas e cuidadas. Um bocadinho como os sonhos maus, ninguém gosta deles, mas eles não deixam de fazer parte de nós.



Drª Inês Lamares
O Canto da Psicologia



quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Corpo e mente: mais sobre as suas estreitas ligações...







Hoje em dia é largamente aceite, tanto por profissionais de diversas áreas como na população em geral, que o corpo e a mente funcionam como um todo, intimamente interligados. De facto, todos nos apercebemos da forma como o que experienciamos e sentimos tem uma expressão corporal, através de algum tipo de sensação, algo que se passa no corpo. Por vezes é o estômago a ressintir o nervosismo, um aperto no peito a denunciar a vivência de alguma angústia ou as pernas a perderem a força quando infelizmente chega alguma notícia grave. António Damásio diz, no “Livro da Consciência”, que “o mundo das emoções é, sobretudo, um mundo de ações levadas a cabo no nosso corpo, desde as expressões faciais e posições do corpo até às mudanças nas vísceras e meio interno”. Depois, será processado a nível mental, de acordo com a estrutura cerebral, a personalidade e o funcionamento mental de cada um.

A Psicossomática debruça-se sobre a forma como o factor psicológico está implicado na doença orgânica. Neste campo não há dúvida que a dimensão relacional e o biológico são complementares, influenciando-se mutuamente. Sami-Ali, psicanalista dedicado à disciplina da Psicossomática, defende que as pessoas que têm um mundo imaginário mais rico estão mais protegidas de doenças orgânicas. Quer isto dizer que, pessoas que possuem melhor capacidade de pensar, de representar mentalmente e refletir sobre diferentes circunstâncias externas e/ou internas potencialmente perturbadoras do seu estado mental e físico, são mais capazes de elaborá-las e reagir adaptativamente às mesmas. Portanto, o que é passível de ser “digerido” mentalmente não necessita encontrar no corpo um escape, uma forma de expressão.

Recentemente, num sentido diferente e complementar surgiram descobertas das áreas da medicina e psiquiatria que vieram aumentar a compreensão sobre a relação entre corpo e mente. A comunidade científica parece unânime na afirmação de que o intestino funciona como um segundo cérebro. Percebe-se agora que não é só o cérebro a afetar o que passa a nível intestinal mas o contrário também acontece, o sistema nervoso entérico (conjunto de neurónios presente no sistema digestivo) também afeta o funcionamento cerebral, denominadamente a nível das emoções. Trata-se de uma comunicação bidireccional entre cérebro e intestino, podendo a informação ter origem tanto a nível intestinal como a nível do cérebro.

As bactérias existentes no intestino (flora intestinal) constituem um fator determinante no funcionamento do intestino e na forma como este comunica com o cérebro, sendo que atualmente é reconhecido o papel destas em doenças psiquiátricas. O psiquiatra António Sampaio esclarece que muitas das consultas de gastroenterologia são encaminhadas para psiquiatria. Explica também como o intestino pode afetar o bem estar psicológico, dando o exemplo da permeabilidade da membrana intestinal, que pode ser causada pelo excesso de toma de antibióticos. A permeabilidade da membrana permite que passem corpos estranhos para a corrente sanguínea que provocam reações inflamatórias e que por sua vez podem provocar redução na produção da serotonina (neurotransmissor ligado à depressão e ansiedade) ou no cortisol (hormona ligada ao stress).

Estes novos esclarecimentos alertam-nos e reforçam a necessidade do cuidado integral que a pessoa deve ter. A nível psicoterapêutico pode-se fazer bastante neste sentido, uma vez neste contexto é possível abordar os temas que estão desviados da consciência de uma forma contentora e transformadora, por consequência retirando ao corpo o peso dessas coisas não pensadas. Por outro lado fornece condições para a restituição da auto-estima, que fomenta o cuidado com o próprio. Sigamos então a confirmar e aprofundar a sabedoria do antigo provérbio “mente sã em corpo são”...



Drª. Filipa Rosário


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Actividade física como meio terapêutico...






Todos sabemos que devemos ser fisicamente activos. Surge agora como novidade no SNS (Sistema Nacional de Saúde) a actividade física como meio terapêutico. Um projecto-piloto de prescrição de actividade física para pessoas que já tenham desenvolvido doenças crónicas, vai avançar em várias unidades de saúde um pouco por todo o país.

O reconhecer da actividade física como um meio de prevenção para doenças crónicas, está bem descrito em vários estudos científicos e é visto como fundamental para o aumento da longevidade. Vários países a nível europeu estão a obter bons resultados com este tipo de política, sendo fundamental que profissionais do exercício físico trabalhem em estreita colaboração com médicos, enfermeiros, etc.

Estas consultas terão como destinatários, pessoas sedentárias, diabéticos ou com quadros depressivos numa primeira fase. Desta forma, o SNS pretende reforçar a capacidade para ajudar quem mais precisa e contribuir de forma decisiva para a implementação de estilos de vida mais saudáveis. Esta medida não só pretende melhorar a qualidade de vida do cidadão, assim como, baixar o peso das doenças crónicas no SNS.
Aguardamos com expectativa pelos primeiros resultados.

Bons treinos
Hugo Silva



Instagram: hugo_silva_coach
-Licenciatura Educação Física/Especialização Treino Personalizado
-Pós-Graduação em Marketing do Fitness 
-Pós-Graduando em Strength and Conditioning
-Director Técnico ginásio Lisboa Racket Centre



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Nem sempre uma asa partida nos impede de voar...






No mito da procura do Santo Graal por Parsifal, encontramos a história do Rei Pescador, o monarca do Castelo de Graal. Em adolescente sofreu um acidente que lhe condicionara a mobilidade para toda a vida… O reinado estava condenado porque o seu Rei estava ferido e, apesar de não ser capaz de morrer, também não poderia sobreviver e fazer prosperar o seu império. 
Uma profecia dizia que ele só se curaria quando um humilde inocente chegasse à corte e fizesse uma determinada pergunta…

Este mito ainda que bastante antigo, remete-nos facilmente para os nossos tempos modernos. 
Muitas vezes somos confrontados com feridas que se tornam autênticos obstáculos na procura do nosso Santo Graal. Podem tratar-se de doenças físicas ou mentais, podem surgir em consequência de uma perda ou luto, pode ser um medo ou angústia, uma separação, um insucesso académico ou profissional que se tornou uma condição depressiva, que acreditamos ser irreparável e sem salvação. Outras vezes associamos a algo intrínseco a nós, como se de uma falha ou deficiência interna se tratasse. 

Estes eventos psicológicos carregados de dor e sofrimento funcionam como asas partidas que nos impedem de voar, como quem quer dizer, que nos impedem de crescer emocionalmente e assim sonhar. 

Para podermos voar, precisamos que o sofrimento psíquico seja manifestado a nível afectivo e ideactivo, através de emoções e pensamentos experienciados, traduzidos em palavras e gestos, transformados em actos. É essencial elaborar a dor, o medo, a vergonha, a culpa ou o ressentimento associado a esses eventos, para que se proporcione a integração mental dos acontecimentos traumáticos.

Perante acontecimentos tão difíceis, a dor e os restantes sentimentos negativos fazem sentido existir pois tratam-se de respostas funcionais perante o impacto do que se passou. Em algumas situações tentamos resistir e fazemos um esforço contínuo para os evitar, achando que somos intolerantes e que estamos altamente susceptíveis para conseguir lidar com tamanha tristeza e sentimento de desamparo. O medo da expressividade destes sentimentos pode ser evidenciado não só com o evitamento, mas também com a transformação das emoções, em agressividade ou raiva.

A reacção depressiva normal e adequada perante determinado evento é um sinal de boa saúde mental, mas por outro lado, a permanência num estado depressivo pode tornar-se um quadro patológico.

Os eventos psicológicos mal elaborados e não consciencializados podem derivar de sentimentos de dependência, de solidão, de incapacidade de se auto-percepcionar como autónomo e capaz de assimilar e apreender a profundidade do sofrimento psíquico.

A reparação e reconstrução destas feridas permite-nos, naturalmente, tornar consciente que é possível voar mesmo com uma asa partida [transformada]. É necessário aceitar que esta asa faz parte de nós e é preciso compreendê-la, para que a partir desse momento, voar [sonhar] se torne algo natural. 



Dra. Fanisse Craveirinha




quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Crónicas do tapete: brincar com bonecas...






- Este é o teu bebé e estes são os meus! Toma, mete por baixo da camisola, ainda não nasceram!

Brincar com bonecas, ou com qualquer objeto que sirva a mesma função, é uma forma absolutamente privilegiada de aceder ao mundo simbólico infantil. Esta atividade desvela um universo de uma complexidade assombrosa, composto por sonhos, memórias, fantasias e experiências de vida de pequenos seres que por vezes ainda nem perderam os dentes de leite! Ao trabalhar com os mais novos, ao tentar vislumbrar o seu mundo interno, é necessário empregar um registo diferente daquele que marca o trabalho com adultos. Assim, o tapete da sala torna-se muitas vezes num componente imprescindível.

Neste tapete, que nada tem de inaudito, deparamo-nos com alguma frequência com movimentos mais agressivos da parte das crianças, que tanto passam por insultar o terapeuta como chegam a ser de agressividade agida, com empurrões e chapadas.  Aquilo a que se pode almejar é a um trabalho elaborativo, de compreensão da função desse mesmo comportamento, o que nos irá permitir olhar humildemente para o que as crianças nos trazem, com verdadeiro interesse, e sem “levar a peito” estes movimentos. Lentamente, pretende-se que as vamos ajudando a transformar a dor, o medo ou a raiva em produtos mais digeríveis, integrados numa vivência complexa.

Durante bastante tempo, uma menina em acompanhamento optava por brincar invariavelmente com bonecas. No decorrer das nossas sessões, ambas assumíamos muitas vezes o papel de mães, pais ou filhos, alternando entre papéis a um ritmo quase selvático. A seu mando, as bonecas que perfilhávamos eram envenenadas, enganadas de forma absolutamente perversa, agredidas de forma gratuita, e não cuidadas ao ponto de falecerem, sem que isso despertasse fosse em quem fosse qualquer tristeza ou mágoa. Ao chegar ao final do nosso tempo, sessão após sessão, mês após mês, esta criança tentava-se esconder dentro da sala ou fugia para se esconder noutras divisões, tentava roubar brinquedos, empurrava-me, fingia urinar para cima de mim, cuspia efetivamente em mim, mas não abandonava o nosso espaço. Lentamente, conseguimos chegar juntas à compreensão de que aquela separação no final das nossas sessões era verdadeiramente dolorosa; aquele espaço seguro e pleno de aceitação, interesse e compreensão fugia-lhe entre os dedos, e a sua reação a tal “perda” era partir para a agressão. A agressão que me era infligida era, no fundo, uma defesa: contra o mal ao qual ela sentia estar frequentemente sujeita, contra o sentimento de vulnerabilidade perante o outro, contra a nossa ligação que, ao ser aceite enquanto real, queria ser mantida a todo o custo, de forma agida e não elaborada. Este repetir da agressão, sessão após sessão, foi, em si, uma oportunidade. Para a interpretação, para a reconstrução e para o crescimento, tanto da menina quanto meu enquanto profissional, que não poucas vezes regressava a estes momentos ao longo da semana e neles procurava significado.

Ao longo deste último ano, o nosso tapete passou a ter bebés que já não são envenenados, ou abandonados à nascença, e agora até o parto é mais humanizado, com cuidados médicos tanto às mães como aos bebés. Os pais interagem de forma mais próxima com os filhos, que por sua vez passaram a estabelecer também relações satisfatórias com outras pessoas, membros da família ou pertencentes a outros contextos. No fundo, vislumbram-se algumas alternativas de funcionamento que envolvem trocas emocionais recíprocas, um investimento genuíno no outro, umas pinceladas de narcisismo saudável e, no geral, uma menina com uma maior tranquilidade.

Neste momento, o final das sessões é na maioria das vezes sereno, e acompanhado de um pequeníssimo pedaço de plasticina bem apertado na sua mão; este ato permite-lhe sentir que a nossa relação se mantém para lá das nossas portas, que não termina quando o ponteiro, implacável, assinala o fim. Estamos a evoluir para uma lista dos objetos necessários para a nossa próxima sessão, que é por ambas assinada; este novo passo brota de uma ainda tímida (mas bastante significativa) maior capacidade de representar internamente a nossa relação. Juntas avançamos, ao seu ritmo, porque tal como os bebés que parimos de novo a cada sessão, também ela tem vindo a renascer, a pouco e pouco.




Drª Carolina Franco
O Canto da Psicologia


terça-feira, 28 de agosto de 2018

A batalha com a balança...





Já deve ter ouvido com toda a certeza, alguém queixar-se, que depois dos 30 anos engorda só de beber um copo de água, ou que basta olhar para um bolo para aumentar de peso.

Pois bem, fisiologicamente com o passar dos anos o nosso metabolismo vai baixando, mas não de forma tão significativa que seja uma verdadeira desculpa para o aumento de peso. A evidência científica mostra-nos que esse decréscimo é à volta de 1-2% por década e que um dos principais factores é a diminuição da massa muscular. Outro factor para o aumento de peso, é que com o passar dos anos as pessoas tendem a mexer-se menos, a fazerem menos exercício e a comerem a mesma quantidade de comida que comiam quando eram mais novas e mais activas.

Deixamos-lhe algumas sugestões para ajudar o seu metabolismo a manter-se elevado:

- Fazer treino de força com cargas externas regularmente (3-4x semana);
- Colocar o treino aeróbio para o fim;
- Acrescentar treino intervalado de intensidade moderada/elevada nas suas rotinas;
- Dormir pelo menos 7-8 horas por dia;
- Procurar diminuir a quantidade de comida com o passar dos anos;

Se o seu peso está a aumentar e não consegue inverter este processo, procure um profissional de exercício e um nutricionista para que o(a) ajudem a melhorar a sua saúde metabólica.

Bons treinos
Hugo Silva



Instagram: hugo_silva_coach
-Licenciatura Educação Física/Especialização Treino Personalizado
-Pós-Graduação em Marketing do Fitness 
-Pós-Graduando em Strength and Conditioning
-Director Técnico ginásio Lisboa Racket Centre




quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Desejo, paixão, amor … e cérebro









Vários são os panos de fundo que remetem para as relações humanas, para aquilo que une, desune, para o que agrada e desagrada, para o que dói e para o que dá prazer.
Bastantes casos em psicoterapia traduzem vivências de sofrimento psicológico inerente a desligações relacionais; outros, traduzem alguma frustração pelo sentir do enfraquecimento da intensidade da ligação que, muitas vezes é perfeitamente natural.
Fazendo um enfoque nas relações amorosas, uma vez que é comum ouvir-se frases como:  ”(…) já não era como no início…estou preocupado(a), com medo que acabe (…)”, introduzirei uma justificação psico-biológica para tais sentimentos.
As várias posições científicas na área convergem no considerar que o amor acontece no cérebro através de um conjunto de reacções de índole química.  
A primeira fase é chamada “fase do desejo” e é desencadeada pelas nossas hormonas sexuais, a testosterona nos homens e o estrogénio nas mulheres.
Quase paralelamente, “fase da paixão”, uma das primeiras reacções é a secreção de um neurotransmissor chamado feniletilamina que provoca sentimentos de excitação, prazer, gerando sentimentos de alegria (“estou apaixonado(a)”). A feniletilamina controla a passagem da fase do desejo para a fase do amor e é um composto químico com um efeito poderoso sobre nós, tão poderoso, que pode tornar-se viciante. O nosso corpo desenvolve naturalmente a tolerância aos efeitos da feniletilamina e cada vez é necessário maior quantidade para provocar o mesmo efeito (Ribeiro-Claro, 2006). Ao mesmo tempo são libertados outros agentes químicos como a dopamina. Por outro lado, as glândulas supra-renais libertam adrenalina que justificam a sensação de nervosismo, como a falada “borboleta na barriga”, aceleração do ritmo cardíaco e outros sintomas que sucedem quando um pessoa está posicionada perante situações de ansiedade (e.g. mãos suadas).
Posteriormente, “fase de ligação”, uma das hormonas produzidas é a oxitocina, conhecida como a hormona do carinho, essencial na ligação mãe-bebé (produção de leite para a amamentação).
Estabelecida uma relação amorosa, o cérebro liberta endorfinas que tem um efeito de relaxamento que provoca os sentimentos de segurança e confiança.
Quando tal se sucede, os níveis de feniletilamina descem e os seus efeitos vão enfraquecendo, o que leva a muitas pessoas considerarem que a relação perdeu o interesse e a direccionarem-se para outra relação.
Aparentemente, a feniletilamina é degradada rapidamente no sangue, pelo que não haverá possibilidade de atingir uma concentração elevada no cérebro por ingestão (Ribeiro-Claro, 2006).
De forma sucinta, quando conhecemos uma pessoa, assim como quando estamos perante um novo estímulo, desconhecido, o nosso cérebro reage de forma a apreender o novo como um todo, integrando-o numa espécie de base conhecida. Com o decorrer do tempo, perante o mesmo estímulo, como é o exemplo duma relação, adaptativamente o nosso cérebro despende gradualmente menos energia para poder estar disponível para todos os novos estímulos do dia-a-dia, essencial de serem processados. Não seria “económico” para o nosso cérebro gastar sempre a energia máxima perante um único estímulo continuadamente.

É interessante pensar nisto!

Dr. André Viegas