quinta-feira, 14 de junho de 2018

Crónicas do tapete: o jogo da memória







- Então, não te sentas no tapete? Já sabes que gosto que te sentes aqui comigo!

Se falasse, este tapete tinha tantas histórias por contar! Com os nossos pacientes mais novos, este simples amontoado de fibras sintéticas serve de cenário a mil e uma viagens ao universo infantil, desde fantasias coloridas e alegres a mergulhos ao que de mais negro pode haver dentro de nós. Quando estamos perante crianças, reina na sala o registo de “faz-de-conta”. É frequente que estas resistam a partilhar as mágoas que as acompanham, seja porque ainda não sabem como o hão de fazer, ou porque lhes é difícil fazê-lo abertamente. É absolutamente essencial calibrarmos os olhos, os ouvidos e o coração até onde os mais pequenos estão, sendo evidente que um diálogo refletido e ponderado não entra na equação. Vamos então brincar!

Neste dia, o cenário era este: o jogo da memória. Cartões virados ao contrário, dispostos aleatoriamente pelo tapete, e sou eu quem tem de encontrar as duas imagens que compõem o par. Vou acertando umas, falhando outras, mas o foco mantém-se nele, que me quer ajudar e me vai indicando alguns cartões. Metaforicamente podemos ir além dos cartões: ele quer-me ajudar a encontrar nele o que não se vê, o que está escondido sob uma máscara de convencionalidade (ou não fosse o reverso dos cartões igual em todos). É a minha capacidade de olhar o que não está lá, o que está mascarado, a minha persistência face às dificuldades e aos avanços e recuos, que está a ser testada num dos jogos mais simples que existem. Ele quer saber se eu o quero verdadeiramente ver, além dos sorrisos fingidos, das gargalhadas vazias, da falsa normalidade, e se estou disposta a não desistir, mesmo quando ele me indica os cartões errados de propósito, como quem simultaneamente deseja e teme ser, enfim, olhado com todos os tons de negro que o acompanham.

- Tens uma bela memória! – diz ele.
- Sim, talvez tenha. Sabes, lembro-me de muitas coisas, como de algumas das nossas brincadeiras ao longo de todo este tempo que já passámos juntos. Às vezes lembro-me até de algumas coisas das quais não falamos porque tu não gostas assim muito de falar! Como quando digo que algumas brincadeiras quase me parecem reais, como se entre nós fossem um jogo mas lá fora uma realidade talvez um pouquinho assustadora…
Sentado no tapete, fica em silêncio a arrumar os cartões, muito lentamente. Não olha para mim, parece absorto nos seus pensamentos. Ao fim de alguns segundos pousa os cartões.
- Ajudas-me?
- A arrumar os cartões? Ou com estas coisas assustadoras que te ficam na ponta da língua mas das quais não falas, como se me quisesses contar mas depois voltasses atrás? Bem… Seja com o que for, estou aqui para ti. Sabes disso, não sabes?
Mantém o olhar baixo durante mais alguns segundos, até que me olha, sorri com ar triste e estende os cartões na minha direção.

A cada semana que passa conseguimos consolidar um pouco mais a nossa relação, sendo essencial que ele se sinta seguro, aceite, compreendido. Passo a passo, acredito que havemos de lá chegar. O tapete, esse, estará sempre pronto para mais uma viagem.


Drª Carolina Franco




quinta-feira, 7 de junho de 2018

Contratos familiares implícitos – “cláusulas relacionais” patogénicas.








Uma paciente com o sonho de ser profissional de música pergunta-me certa vez:

- “Doutor, acha que eu tenho capacidades psicológicas para ir estudar Direito ou Arquitetura?

Respondo-lhe:
-“Lúcia, às vezes questiono-me que implicações pode sentir que pode haver na sua vida se puser em prática todas as suas capacidades na área da Música, a área que me diz com frequência sentir que é a sua vida! Será que a sua verdadeira pergunta é se eu acho que tem capacidades psicológicas para lidar com as consequências que poderão haver na sua vida familiar se decidir dar um lugar privilegiado à Música?”

Vários são os panos de fundo que remetem para as relações humanas, para aquilo que une, desune, para o que agrada e desagrada, para o que dói e para o que dá prazer, para o que aprisiona e também para o que liberta.
A família é o grupo humano matriz do individuo e faz-se constituir, como em qualquer grupo humano, por lógicas conscientes e inconscientes de funcionamento que visam determinada organização e coesão. Afamília é – ou deverá ser - o ponto de partida para a construção de um passaporte identitário que possibilite a cada individuo o embarque noutras viagens, viagens de expansão e diferenciação, de enriquecimento identitário para além daquilo que foi “doado” na e pela família.
Às vezes, contudo, devido a componentes de funcionamento familiar que não são (tão) conscientes- uma espécie de “genética psicológica familiar” que muitas vezes passa de geração em geração, mandatos transgeracionais - é comum surgir na clínica psicológica indivíduos com lógicas individuais desarmónicas, descontínuas, despersonalizadas e desvitalizadas que se repercutem constantemente em momentos de sofrimento psicológico que levam ao bloqueio do estar bem. Estas mesmas lógicas fazem-se por isso acompanhar muitas vezes de sintomatologia com múltiplos fenótipos, nomeadamente sintomatologia depressiva.
Na viagem da psicoterapia, entre psicólogo e paciente, uma viagem investigativa mas também de expansão, transformativa e reparadora, muitas vezes deparamo-nos com “lugares” onde, implicitamente, o sujeito “assinou”, porque também, em nome de uma suposta homeostasia familiar lhe foi dado a assinar, um “contrato” cujas “cláusulas relacionais implícitas” remeteram para a importância de ficar perto (demais), para não se ausentar, para cumprir o esperado, para ocupar o lugar de um outro elemento que possa ter estado de forma insuficientemente.
 Surgem na clínica psicológica muitas histórias de” lugares” que foram ocupados mas que são muitos desconfortáveis para o próprio e em nada potenciadores do seu crescimento, da sua autonomia, da sua liberdade. São uma espécie de “lugares-prisão” onde é importante o sujeito ganhar consciência e ir ficando gradualmente munido de ferramentas narcísicas, de valor próprio percecionado, para se desacorrentar sem culpa.  
Há realmente muitos filhos e filhas que ocuparam o lugar de um pai ou de uma mãe quando estes, por diversos motivos, não souberam ocupar tal lugar. Há filhos e filhas que sentem que têm de cumprir com as expectativas implicitamente e muitas vezes explicitamente neles depositados. Percursos académicos e profissionais escolhidos em nome individual transportam muitas vezes um mandato familiar que é sentido como imprescindível para não beliscar o narcisismo da escultura familiar. Há tantas Lúcias que querem ser músicas mas que sentem que poderão estar a trair o pacto familiar. Optam muitas vezes depois pela arquitetura ou pelo direito. Foi-lhes arquitetado um caminho “sem direitos”. Há tantas Lúcias que querem trabalhar fora da empresa da família mas sentem tal querer como proibido, tantas Lúcias que querem permitir-se ser isto ou aquilo, gostar disto ou daquilo, deste ou desta, há tantas Lúcias que quererem ser, tantas Lúcias que sentem que ao viajar na vida abandonam quem lhes deu vida.
Às vezes parece haver um interdito na concretização de aspirações do próprio por, de certa forma, este sentir que tal concretização poderá ser sentida como uma traição, um ataque a quem se ama. Há uma espécie de sentimento generalizado de não gratidão, uma espécie de hemorragia interna que bloqueia a expansão do próprio. Teme-se a perda do lugar, teme-se a perda do amor de um sujeito relacional que faz-se (querer) amar pelo cumprimento de determinadas cláusulas relacionais patogénicas que fazem adoecer. Fica-se numa espécie de um lugar tanto faz, um lugar onde tanto faz quem se é e onde tanto se faz e se é sem gratificação. Fica-se num lugar condicional à espera da incondicionalidade do amor.
A família nunca deveria ser um lugar de aprisionamento do desenvolvimento do indivíduo. Muitas vezes é sem saber. É como se houvesse uma espécie de ferida familiar que se traduz em determinados movimentos não conscientes dos seus elementos e onde algumas vezes a suposta felicidade de alguém depende da infelicidade de outrem.
A viagem psicoterapêutica, individual ou familiar, tem um papel imprescindível em tornar estes lugares mais conscientes. Ao ritmo do sujeito, há uma condução acompanhada a estes lugares e onde se estimula a construção de um novo lugar – o lugar do próprio dentro de si. Estimula-se a procura de um lugar onde o próprio se possa firmar com segurança, desta vez com a sua assinatura, com a sua marca, a sua identidade.

André Viegas
Psicólogo Clínico
Canto da Psicologia







quinta-feira, 31 de maio de 2018

Uma relação de confiança…







Numa qualquer relação interpessoal, a confiança será uma qualidade em desenvolvimento, de forma mais ou menos consciente, desde que, nesse processo, ocorra uma harmonia consistente entre o que cada pessoa diz e o que faz.

Nesta medida, a confiança estará associada à expressão da verdade, não à que se refere como tendo uma natureza absoluta e transcendente à experiência humana – essa Verdade é, por definição, inacessível e desconhecida – mas sim ao que é genuinamente relevante, consciente, de modo objectivo e subjectivo, numa determinada relação.

Concomitantemente, é importante esclarecer que a confiança numa relação revela uma vivência de natureza benevolente, não bastando assim que uma determinada dinâmica relacional seja apenas expectável para que exista confiança, porque uma relação pode ser suficientemente previsível, mas ser de índole desrespeitosa, abusiva e, por isso, maligna; ao invés, dada a sua intrínseca benevolência, uma autêntica relação de confiança tende a promover partilha, proximidade e profundidade na expressão afectiva.

É especialmente importante destacar na análise e compreensão do fenómeno de confiança nas relações humanas, o «território» primordial e potencialmente fundador dessa qualidade: a relação pais-filhos.

Na realidade, desde o início da relação pais-bebé, a continuidade dos cuidados físicos e do acolhimento emocional por parte dos pais é fundamental para desenvolver no bebé a sensação de uma segurança essencial, de amparo básico, que gera, sustenta e nutre o desenvolvimento dessa qualidade de confiança nas relações humanas.

Mais tarde, com a aquisição da competência de marcha da criança, com uma subjacente maior capacidade de explorar o mundo e, igualmente, com o desenvolvimento da linguagem, aquilo que é permitido e negado à criança, através dos “sins” e “nãos” dos pais, serão experiências que irão intensificar a confiança da criança nessas relações familiares, enquanto «portos seguros», desde que se revelem suficientemente consistentes nas suas atitudes parentais. Importa clarificar que uma relação de confiança, o tal «porto seguro», não será uma relação estática, inerte e rígida, mas sim uma relação com alguma flexibilidade perante as necessidades que vão, naturalmente, se modificando com o desenvolvimento dessa relação. Continuando a recorrer ao exemplo da relação pais-filhos, os progenitores poderão impedir que um bebé de 10 meses se coloque de pé em cima de um pequeno banco, na medida em que tal atitude parental estará ao serviço da protecção básica que os pais devem garantir a esse seu filho; já face a uma criança de 3 ou 4 anos que tenha esse mesmo comportamento, a atitude dos pais poderá ser de aceitação ou até mesmo de incentivo num eventual momento de interacção lúdica com a criança, na qual a segurança da mesma estará preservada, porque já consegue descer sozinha, sem dificuldade, desse pequeno banco.

Por outro lado, os pais poderão constituir-se na relação com a criança como «portos à deriva», flutuantes e instáveis, na medida em que os “nãos” se modifiquem rapidamente em “sins” perante os desafios de lidarem com uma qualquer solicitação, exigência ou birra infantil.

Neste sentido, se os pais dizem, assumem ou até prometem determinadas coisas, mas, muitas vezes, fazem outras, como podem as crianças sentirem confiança suficiente nessa relação fundamental de cuidados, ou seja, como poderão se sentir minimamente seguras e tranquilas na relação com os progenitores?

Nessas circunstâncias, as crianças, como dependentes emocionais que são na relação com os seus pais, tendem a manifestar e a desenvolver, em si mesmas, a instabilidade que vivenciam nessas essenciais relações familiares, podendo, assim, esse tipo de vivências continuadas consubstanciarem-se num grande obstáculo a um saudável desenvolvimento mental infantil. Infelizmente, esse reiterado mal-estar psicológico das crianças, será assim impeditivo da construção de alicerces fundamentais da própria confiança em si próprias, porque as experiências relacionais que foram integradas no seu mundo interno foram dessa natureza. Nesta medida, mais tarde ou mais cedo, enquanto crianças, adolescentes ou adultos, surgem, naturalmente, os pedidos de «reparação» psicológica dessas lacunas/falhas dolorosas, como bem sabemos n’ O Canto daPsicologia.

Por conseguinte, chegando ao âmbito específico da psicoterapia, o desenvolvimento da confiança na relação terapêutica passa a constituir uma prioridade. Assim, o psicoterapeuta, enquanto «cuidador» psicológico do paciente reveste-se, assim, de um papel que se aproxima, simbolicamente, de uma figura parental e é, nessa medida, que poderá ajudar a restituir a confiança relacional no paciente.

De acordo com o exercício dessa responsabilidade, o psicoterapeuta deverá estar bastante atento aos compromissos que realiza com o paciente, logo desde a primeira sessão, designadamente sobre o modo como o processo psicoterapêuticoirá decorrer. Será, assim, relevante que, perante o pedido e expectativas do paciente e/ou do seu encarregado de educação – no caso do paciente ser ainda uma criança ou adolescente – o psicoterapeuta clarifique suficientemente bem o modo como trabalha e a forma como pode ajudar o paciente a atingir o que espera com a psicoterapia. De modo a que se defina a natureza desta relação tão particular e distintiva, torna-se, igualmente, importante a explicitação das normas e limites dessa dinâmica relacional, entre os quais se enquadram a regra da confidencialidade e as suas excepções – tipicamente, face a situações de iminente risco de segurança para o paciente ou outras pessoas – a periodicidade e duração das sessões, os honorários do psicoterapeuta e o modo de realizar esses pagamentos, o procedimento para desmarcação de sessões e aviso de férias por parte do psicoterapeuta e paciente. Adicionalmente, a própria forma de estar do psicoterapeuta em sessão deverá revelar um padrão coerente de intervenção, tendo em conta o seu quadro teórico de referência e as normas éticas e deontológicas da sua profissão. O que sucederia se o psicoterapeuta faltasse frequentemente às sessões com o paciente, que alterasse muitas vezes os horários das sessões ou a própria forma de intervir? O contributo do psicoterapeuta para essa relação seria, sobretudo, ao nível da instabilidade, algo oposto à pretendida confiança básica, sendo que esta pode ser considerada a «terra» essencial a partir da qual se podem cultivar «sementes» de transformação psicológica.

Em suma, em cada relação humana, o seu potencial de desenvolvimento dependerá, em grande medida, da qualidade de confiança que for sendo estabelecida, sendo certo que cada pessoa procurará, de uma forma mais ou menos explícita/implícita ou aberta/fechada, satisfazer essa necessidade básica. Afinal, profundamente, o desejo de desenvolver boas relações é algo inerente à condição humana…



Dr. Nuno Almeida e Sousa 





terça-feira, 29 de maio de 2018

O exercício e o cérebro...




“Qual é o mínimo de exercício físico que tenho de fazer para obter benefícios fisiológicos?”


Um artigo publicado na revista científica Brain Plasticity, sugere que o mínimo exigido de treinos será apenas uma só sessão. Um treino apenas, poderá desencadear uma série de reações positivas no cérebro. Destacando-se melhorias ao nível do:

-humor
-memória,
-capacidade de concentração,  
-velocidade de reação;
-criatividade;

O exercício físico já está comprovado na ajuda de doentes com problemas cognitivos; Alzheimer; Parkinson, depressões, etc.
Podemos concluir então, que se o “exercício agudo” mostra melhorias ao nível cerebral, uma prática regular e estruturada de exercício permitirá evitar no processo de envelhecimento, doenças do foro neurológico, permitindo um envelhecimento mais saudável e autónomo.

Bons treinos


Instagram: hugo_silva_coach
Linkedin: http://linkedin.com/in/hugo-silva-1b8295132
-Licenciatura Educação Física/Especialização Treino Personalizado
-Pós-Graduação em Marketing do Fitness 
-Pós-Graduando em Strength and Conditioning
-Director Técnico ginásio Lisboa Racket Centre




sexta-feira, 25 de maio de 2018

O Paulo Figueiredo, à balda, e equipado à Nené...








Na casa dos Figueiredo, o riso andava à solta, propagava-se e os carros tinham dois volantes. Um para quem ensinava e outro para quem aprendia. Era casa de condução, tinha uns azulejos do Chico Escuro numa parede empedrada sobre a qual me lembro de libertar águas, vertidas da cintura para baixo - ninguém estava a ver, claro – e onde ainda me fica a memória vaga de acertar dois arrebites bem assentes na fachada do Bruno da Neuza. O Paulinho ainda nem chegava com o queixo ao tablier e já esgalhava no Ford do pai a toda a brida. Eu gostava aos magotes do Paulinho e, quando ele dava uma guinada fora do programa, o António pai lá soltava do alto da sua total e invencível sapiência de todas as coisas sobre rodas: “Ó Paulo, isto não é à balda”. Amarfanhei-lhes a minha carta de condução na escola que ainda é deles, ali onde Linda-a-Velha começa a descer para uma coisa que mira flores ou lá o que é. Isto, naturalmente, depois de colar a grelha do Datsun 1200 do papá à parede da garagem – quis a santa providência que o Dentinho se desviasse da frente a tempo, antes que virasse uma panqueca canídea. Os Figueiredo, do António ao Paulinho, da Tininha à Mónica, faziam descaso dos nossos restos coloniais com um travo a Moçambique, gostavam de se raspar para o Algarve e foram os primeiros benfiquistas da minha vida. Eram alegres até aos ossos. Para não ficarmos lá no nosso casebre com o labéu de fundamentalistas, o Paulinho aparecia nas festas de anos com a camisola do Nené enfiada no esqueleto e eu perdoava porque as prendas dos Figueiredo eram de estalo. Mais tarde, continuei a tolerar esses desvios do Paulo a troco de uns filmes em VHS do Rocky dobrados em alemão. Parece que eram um senhor a quem entretanto se apagara o maçarico. Não percebemos nada, mas vibrámos juntos ao ver aquele russo mau do tamanho de uma montanha bater com a marmita na lona – o Stallone nunca nos deixou ficar mal.
Parece que o Paulinho faz hoje 46 biscoitos e agora é ele quem ensina a maralha a conduzir. Não o vejo desde que a mana Suzy deixou de ser solteira. Não gosto e lá tenho de me render à promessa de procurar mais um amigo que esse ladrão do tempo me quer roubar. É provável que o nosso Paulo Figueiredo ainda se equipe à Nené até quando dá aulas no tal descaso pós-colonial. Afinal, a vida às vezes é para ser levada na descontra e à balda. Aprende-se imenso assim.

Parabéns com todo o calor, Paulinho. Podia lá esquecer-me de um Figueiredo como tu.

Todos os abraços e, já agora, toma lá mais um a mais para o caminho.

Filipe Alexandre Dias
O Canto da Psicologia


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Traduzindo conceitos...








            Cinco dinâmicas fundamentais em psicoterapia psicanalítica: acting-out, transferência, enactment, contra-transferência e actualização.

          Podemos definir acting-out como todos os comportamentos e/ou atitudes que ocorrem no contexto de um processo psicanalítico, que de alguma forma estão ligados aos conflitos intrapsíquicos e inconscientes do paciente e que tendem a expressar-se no contexto da relação terapêutica e, portanto, da relação transferencial. O que nos permite distinguir os simples comportamentos/atitudes, de cariz sintomático, dos reais acting-outs é, precisamente, o facto de estes últimos serem activados, ou mesmo “solicitados” (pela acção do terapeuta) e não terem que ver com expressões sintomáticas já existentes, a priori, no quadro clínico do paciente, ou pela exacerbação das mesmas. Na mesma linha de raciocínio, o que define o acting-out não tem que ver com a natureza, intensidade, ou gravidade do comportamento, ou mesmo com o local onde ocorre, desde que conheça génese nos produtos do processo terapêutico. Aliás, o acting-out, pode interferir nesse mesmo processo, firmando-se como uma forma de o fazer avançar ou de lhe resistir, facilitando a lembrança e a comunicação, activando-as ou, au contraire, inibindo-as. Com o passar do tempo, o termo acting-out foi sendo usado, cada vez mais, para se referir a comportamentos disruptivos e tidos como inadequados, sendo-lhes atribuído sempre um valor negativo e/ou destrutivo, no contexto do processo terapêutico. Todavia e sobretudo nas abordagens interpessoais, relacionais e inter-subjectivas, (mas não só, também entre os freudianos e kleinianos contemporâneos) algumas das modalidades do acting-out têm sido extensamente estudadas e trazidas para as discussões actuais, acerca das especificidades do processo terapêutico de cariz psicanalítico. O continuum transferência-acting-out-contratransferência passou, assim, a estar no centro das atenções, muito à custa do papel fundamental que, dimensões como enactment e actualização assumiram na prática clínica.
          O conceito de enactment, bem como a discussão da sua especificidade, enceta-se com Jacobs e McLaughlin. O termo expressa, por assim dizer, os comportamentos inconscientes e involuntários, verbais ou não-verbais, que ambas as partes da díade terapêutica - terapeuta e paciente - põem em prática, por força e, portanto, consequência, das implicações que o comportamento do outro opera em cada um. Note-se, a importância especial que a comunicação não-verbal - a mímica, as expressões faciais, as posturas e os trejeitos, etc. -, mas, também, que a própria comunicação verbal - a entoação, as pausas, etc. - assumem na questão do enactment, já que, ainda antes do desenvolvimento da linguagem, qualquer indivíduo aprendeu formas de reconhecer no outro vontades, desejos e idiossincrasias, através da observação do seu comportamento. Completando, podemos considerar que “ocorreu” enactment quando o paciente, de forma inconsciente, comportando-se de um modo particular, capta a predisposição subjectiva do terapeuta para se sentir e responder de determinada forma, propiciando nesse uma reacção emocional, que acaba por confirmar as fantasias e desejos transferenciais do primeiro. Podemos, ainda, dizer que o que está em causa é também e sempre, a questão da transferência e, portanto, a tentativa do paciente encontrar na relação resposta para os seus anseios e fantasias e para a mise en scène dos seus padrões e registos relacionais precoces. Também em causa, funcionando sempre em sentido complementar, encontramos a contra-transferência, da qual, os fenómenos de enactment estão directamente dependentes.
          Quando Freud pela primeira vez, se referiu ao produto contra-transferencial, conceptualizou-o como aquilo que se opera, que “chega no terapeuta”, por força da influência do paciente no inconsciente desse. Tendo por base essa ideia, Freud, tal como outros analistas clássicos - Melanie Klein ou Paula Heimann - acreditavam que a contra-transferência era um real perigo para a neutralidade e objectividade do terapeuta e, portanto, deveria ser reconhecida e ultrapassada por este último. Pelo contrário, outros autores - talvez o primeiro tenha sido Sándor Ferenczi - olharam para a contra-transferência de outra forma. Partindo de uma matriz construtivista da situação analítica, consideram que, para além de ser reconhecida, a contra-transferência deve ser trabalhada e analisada, como um produto fundamental do processo terapêutico. Mais que isso, deve ser perspectivada como uma via privilegiada de acesso ao sempre insondável inconsciente do paciente.
           A este propósito, Hinshelwood concluiu que as perspectivas surgidas nas últimas décadas dão conta da noção, de que o terapeuta é possuidor não só de uma identidade profissional, mas também de uma identidade pessoal, psicológica e que, ambos esses aspectos estão implicados em tudo que ocorre durante o processo terapêutico. Assim, através da contra-transferência, o terapeuta vê-se entre as fantasias do paciente, o seu papel de técnico e de facilitador da mudança e as suas próprias fantasias. Eis que estamos, também, perante três possibilidades: o paciente integra, incorrectamente, o terapeuta como tendo um papel na sua fantasia; ou, de certo modo, o estado de espírito do terapeuta condiz com a fantasia do paciente; ou, ainda, o terapeuta é, digamos, instigado a desempenhar o papel - o enactment, portanto.
          O enactment, distinto do simples e tradicional acting-out (porque ao invés do que ocorre neste último - no qual o terapeuta é mero observador, no primeiro, o terapeuta é participante), possibilita, assim, a forma mais subtil de acting-out, a actualização. Podemos descrever a actualização como o processo, através do qual o paciente experiencia que o comportamento ou atitude do terapeuta, de certa forma, foi ao encontro dos seus desejos ou expectativas, mesmo sem que o paciente tenha noção desses mesmos desejos ou expectativas ou, sequer, do processo que se opera na satisfação dos mesmos. Concomitante a esse processo subjectivo, a actualização origina um processo mais objectivo, que se refere às tentativas do ego rever as formações de compromisso engendradas, pelo conflito criado pela emergência das fantasias transferenciais. Por fim e complementarmente, devemos referir que por desejos e expectativas satisfeitas devem entender-se, sobretudo, gratificações inerentes ao próprio processo terapêutico, mas também relacionadas com fantasias transferenciais próprias de cada paciente.



Dr. Pedro Rodrigues Anjos
O Canto da Psicologia







quinta-feira, 17 de maio de 2018

Famílias Mais ou Menos... Acolher ou Adotar?







Em tempos, na minha consulta de psicologia, veio uma senhora trazer a sua filha “adotiva” de 15 anos que andava muito perdida e com comportamentos de risco na escola. A menina era muito bonita, tinha um sorriso encantador e puro, dava a impressão que tinha amor na sua vida. A “mãe” descreveu a menina com alguma ternura, ainda que timidamente, porém recriminava os maus comportamentos dela. 

Expressava que a adolescente estava a desiludir a família pois tinha sido “buscada” (“adotada”) e devia ser muito grata uma vez que teve o privilégio de ter acesso a uma realidade que jamais teria em condições normais. A história da querida menina foi muito dura, nasceu numa família de toxicodependentes, pai violento e alcoólico e mãe igualmente dependente e depressiva. É a terceira filha e a mais nova de três irmãos; um rapaz e uma mais velha. A adolescente foi retirada à família ainda com poucos meses de vida, a família era recorrentemente agressiva e negligente, deixavam as crianças sozinhas em casa, sem comida durante dias, o pai batia e maltratava principalmente a irmã mais velha. Este foi o contexto central, desta menina, quando nasceu e teve sim, talvez a sorte, de ser retirada ainda com meses para um centro de acolhimento. 

Contudo este bebé não foi adotado, foi um bebé, digamos que “emprestado”, isto é, são as famílias de “acolhimento” que acolhem as crianças mas não lhes dão o seu nome, que dizem para estas mesmas crianças para as tratarem como tios, apesar de serem pais, no fundo. Enfim são as famílias mais ou menos. Pode ser questionável - mas não será melhor estar numa destas famílias de “acolhimento” do que num centro de acolhimento? Aqui está a grande questão, estas famílias são, de facto, muito prestáveis, porém podem estar a provocar mais estragos e mazelas psicológicas, a estas crianças que já carregam um início de vida tão sofrido, marcado pela rejeição e pela falta de amor.


Esta adolescente nem bilhete de identidade tinha, pois não tinha de facto família (último nome) apesar de a ter na prática. Podemos deduzir que estas situações geram tremendas confusões na mente destes jovens que, por vezes, poderão recorrer a práticas perigosas, drogas, comportamentos sexuais de risco, porque na realidade sentem que não pertencem a nada (tal é a ansiedade e a dor interior). Esta é uma verdade indubitável para quase todos nós que nos enquadramos na “norma”, uma vez que podemos afirmar que pertencemos a esta família, o nosso último nome é o tal, é uma certeza garantida (nem pensamos muito no assunto). Mas estas crianças pensam e muito neste tema, vivem ora ansiosas ora tristes com esta situação da não assumida pertença. O processo de vinculação, a representação cognitiva que temos da forma como os mais significativos (pais ou outras figuras de referência) nos trataram ao longo da nossa infância, fica totalmente comprometida de forma negativa e vai influenciar todas as experiências relacionais futuras. Uma criança de Centro de acolhimento tem, necessariamente, esta representação danificada, as figuras de vinculação primárias foram negligentes, mal tratantes e abandónicas, pelo que provocaram, no bebé, uma construção de uma vinculação insegura que é muito difícil de reparar.

O ser humano necessita de pertencer a algo como necessita de se alimentar e de respirar. Precisa de pertencer a uma família em primeiro lugar e depois, de pertencer a um grupo de amigos, a um namoro, a uma escola, a um trabalho. Esta necessidade de pertença é fundamental, pois precisa de sentir que é especial, no seu trabalho, na sua família em tudo em que está envolvido de corpo e alma. Deste modo é muito violento afetivamente não ser verdadeiramente e concretamente adotado pela nova família. O não ser é uma rejeição “mascarada” que estas crianças não precisam muito pelo contrário.
 A adoção ou é concretizada após minuciosa análise dos pais e das crianças ou então, penso que estas famílias de acolhimento ou as do fim-de-semana, para os meninos de lar, não são uma solução viável que respeite o seu interesse superior. Os encontros escassos, com famílias em alguns fim-de-semanas também, só irão aumentar a frustração e a certeza, de que não pertencem a nada. É urgente perceber que as famílias “mais ou menos” são nefastas para estas crianças! Porque não merecem elas o melhor que podem ter? Porque não merecem elas uma família por inteiro? São crianças como todas e precisam de ter o mesmo que outras que nasceram numa família que as teve por inteiro. Só assim faz sentido que estas meninas e estes meninos, do mundo, tenham acesso a boas experiências, depois das contrariedades do início da vida. A sociedade deve lhes isso e não podemos fazer, se não o nosso melhor, para lhes proporcionarmos o mínimo: que é ter uma identidade, que é pertencer.

Mafalda Leite Borges