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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A série de todas as séries...

 



Nos últimos dias tornou-se inevitável abordar este tema, pelos mais diversos motivos e não pelos melhores motivos… o tema envolve a série Squid Game e, por consequência, o tema envolve igualmente várias outras séries, filmes e jogos que são vistos e jogados por crianças e adolescentes antes da idade indicada para tal, devido à violência a que são expostos.

Comecemos então pela série em questão, que está a ter um enorme foco por toda a comunicação social, em diversos países do mundo. Trata-se de uma série que foi lançada há pouco tempo e que atingiu rapidamente um número de visualizações muito elevado, infelizmente visualizações estas realizadas, na grande maioria, por crianças e adolescentes com idade muito menor à recomendada. Referimo-nos a algo com um conteúdo extremamente agressivo, violento, tanto física como psicologicamente, claramente com uma mensagem implícita por trás, que para adultos essa mensagem poderá ser interessante e até importante, mas que para adolescentes não será compreendido dessa forma e muito menos o será por crianças.

As “provas” de que estamos perante um perigo a nível comportamental, para quem vê esta série, são as notícias que têm surgido, que em nada surpreendem, sobre crianças a replicar nos recreios das escolas o que viram na série. O que nos remete para brincadeiras extremamente violentas e, consequentemente, perigosas a vários níveis.

Tudo isto pode levar-nos a alguns pontos para discussão. Podemos começar pela idade indicada como referência para se ver uma série/filme ou jogar determinados jogos. Esta referência não é colocada aleatoriamente, esta referência é colocada com base em critérios específicos e, por isso mesmo, não deve ser ignorada. Este é o principal problema observado atualmente, o ignorar desta referência, o ignorar da parte da maioria dos pais… Se pode ser difícil o dizer “não” quando o argumento é “mas todos os meus colegas viram”? Pode! Mas também pode ter consequências ceder a este argumento? Pode!

Esta nova série é apenas mais um exemplo, do quanto os jovens atualmente estão a ser expostos a algo totalmente desadequado às suas idades. A problemática aqui foca-se na agressividade excessiva que está presente nos conteúdos apresentados e que, inevitavelmente, se refletem no comportamento.

Neste texto o objetivo é alertar para o que estamos nós, enquanto sociedade, a permitir que os nossos jovens tenham acesso, sem que ainda tenham as devidas capacidades desenvolvidas para assimilar a informação que consomem. Existem diversas fases do desenvolvimento, pelas quais todos passamos e cada uma delas vem com a aquisição de capacidades e conhecimentos. E quais são as consequências de dar informações aos jovens antes dessas capacidades estarem totalmente sedimentadas? Assimilar de forma errada, percecionar o que veem de forma errada e adquirirem comportamentos com base no que assimilaram, que muitas das vezes se reflete em comportamentos agressivos, por ainda estar a ser construída a capacidade de lidar com o emocional. Quais poderão ser os impactos a nível social e emocional? Incapacidade de lidar com a frustração sem aceder à violência e incapacidade de estabelecer ligações emocionais contentoras e coesas, são apenas exemplos.

Importa assim respeitar o caminho das etapas de desenvolvimento das crianças e adolescentes, não lhes oferendo ferramentas que ainda não conseguem utilizar da melhor forma e para as quais ainda não têm competências emocionais de gerir e aplicar.

 

Drª Rita Rana

O Canto da Psicologia – Lisboa


quinta-feira, 1 de julho de 2021

Até breve Mestre....

 


O mundo da psicanálise , da psiquiatria e da psicologia , hoje, está de luto!

Há uns tempos, ouvi uma frase dita por Bagão Félix numa entrevista a um canal de televisão :

“ A morte é a única certeza que é incerta no tempo”…

Desculpe Professor mas algures, por aqui, a sua imortalidade estava clara para todos nós que fomos seus alunos, e supervisandos! Já o estou a ouvir. “Que arrogância essa!” Talvez assim o seja, mas ainda há pouco mais de ano e meio o ouvi nas Conversas com História com Raquel Varela no Centro Cultural de Belém , exactamente um mês antes  da pandemia nos reduzir à condição mais vulnerável do ser humano! Afinal de contas não controlamos é “porra” nenhuma!! (perdoe-me o calão, mas também sei que isso não o incomodava, nem um pouco, desde que bem usado e contextualizado ;-) )

A sala, para variar, encheu-se!! E eu lá estava nas primeiras filas, porque para mim tem que ser assim, espreitando, de quando em vez pelo ombro, o fantasma que já vinha sendo anunciado do raio do COVID! Porque, agora, era claramente impossível acontecer este evento! Que sorte a minha que fui até lá…

E o Professor gostava de comunicar com o outro, com os outros!! Via-se , pelo brilho do seu olhar ( que a idade não esmoreceu) quando falava do que lhe perguntavam, quando falava de si enquanto Psiquiatra, Psicanalista, Professor , dos seus anos e de todos os começos e recomeços  , das suas experiências no exercer da sua profissão( das quais eu já tinha ouvido falar,  mas ouvi novamente  como a primeira vez). Até quando, o seu aparelho auditivo o tramou e teve que, perante o público mudar a pilha, o Professor  desculpou- se e fê-lo com espontaneidade, simplicidade, assumindo a sua condição humana, neste tempo, naquele tempo que era seu e nosso. E o riso e o aplauso ecoaram por toda a sala. Provavelmente foi o último evento onde esteve presencialmente. Pelo menos meu foi. Voltei a vê-lo num webinar . Mas não foi a mesma coisa!

Desculpe Professor mas algures, por aqui, em mim, a sua imortalidade era inquestionável. Até hoje!

Muito obrigada pelo que nos deu e pelo que nos deixou. A sua obra irá continuar viva ao longo dos tempos para quem, como nós,  abrace este mundo da saúde mental  tão estudado por si.

E, como vê, afinal não é arrogância pensá-lo no mundo da imortalidade…

 

Até breve Professor Coimbra de Matos!

 

Ana de Ornelas

O Canto da Psicologia


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Mantenham-se activos e seguros...

 



Novo confinamento, mas a pandemia alastra a cada dia que passa e precisamos mais do que nunca de nos cuidarmos. Os dados que vão sendo revelados pela OMS, mostram que a epidemia se agrava em doentes que sofrem de obesidade, assim como aumenta a taxa de mortalidade, cerca de 3,4x mais do que em doentes normoponderais. Acrescentar ainda, que os países com maiores taxas de obesidade apresentam maiores números em termos de mortalidade. Neste contexto, é fundamental que mesmo em casa, se mantenham hábitos diários de exercício físico. Procurar fazer 30 minutos diários de exercício, pode ser fundamental para ajudar o sistema imunitário a manter-se forte e resistente.

 Mantenham-se activos e seguros.

Bons treinos

Hugo Silva

Instagram: hugo_silva_coach

-Licenciatura Educação Física/Especialização Treino Personalizado
-Pós-Graduação em Marketing do Fitness 
-Pós-Graduando em Strength and Conditioning
-Director Técnico ginásio Lisboa Racket Centre



quinta-feira, 2 de julho de 2020

A esterilização dos afectos...




Em tempos como estes, em que temos regras sobre como podemos estar e interagir é-nos solicitado, a todos, que nos readaptemos a uma realidade que já vai sendo mais conhecida, mas que continua a ser, creio eu, estranha.
No início parecia mais fácil esterilizar, desinfectar, limpar onde tocamos, por onde passamos, talvez por momentos até tenhamos esterilizado o que sentíamos e o que pensávamos, tendo pouco espaço para fazer mais do que aquilo que sentíamos efectivamente necessário e urgente no momento.
Cada vez mais fala-se no retomar a uma nova normalidade, uma nova normalidade necessária, pelo menos no que diz respeito à economia. Quando mais oiço falar na necessidade de retomar, de voltar a fazer as coisas que sempre fizemos, fico eu própria com uma sensação de ambivalência que me faz parar e pensar… claro que precisamos todos que as coisas vão voltando ao normal, que os pais regressem ao trabalho, que as crianças voltem às creches e às escolas, que tanto adultos como crianças possam voltar a praticar as suas actividades e que voltem aos seus locais de saúde, refiro-me claro aos consultórios onde são acompanhadas, nas suas diversas modalidades.
Mas como isolamos o contacto com uma criança? Como esterilizamos a necessidade do afecto, do abraço, do toque… como esterilizamos o brincar? Como podemos fazer lutas entre cowboys e soldados? Como podemos construir sem partilhar? Será possível esterilizar esta parte? Automaticamente quando penso nisto, penso em crianças e adultos ansiosos, deprimidos, doentes até! E fica em mim um grito surdo “o que a mente cala o corpo fala”, famosa frase de António Coimbra de Matos.
Como contemos uma criança seja no consultório, seja na escola, sem lhe podermos tocar? Sem elas poderem olhar e ver a nossa expressão (escondida por detrás de uma máscara)?
Falo de crianças dado os óbvios obstáculos em termos de desenvolvimento, mas penso também nos adultos, no fundo, penso em todos nós… como podemos integrar a nossa experiência, estruturar o nosso eu, organizar as nossas relações interiormente, elaborar as coisas que sentimos e pensamos sem a possibilidade da contenção de um abraço? No fundo, na ausência da experiência do afecto.
Onde, dentro de nós, colocamos o “temos de estar isolados” ou “precisamos de uma distância de segurança para existir” ou até a impossibilidade do “vem cá que eu dou-te um abraço ou um beijinho…”
Será que este retomar à “nova” normalidade está a ter em atenção a nossa saúde mental?
Como é que na escola gerem, no caso dos mais pequenos, as distâncias de segurança? O não poderem tocar-se para brincar? O não poder dar um beijinho ou um abraço quando alguém se aleija?
Penso em todas as crianças (e adultos) que acompanho e que tenho vindo a acompanhar em modalidade on-line, penso no voltar ao consultório, de máscara, talvez com algumas fantasias que não são, certamente, terapêuticas (será que aquela criança ou adulto está seguro ali? Será que eu própria estou segura?), penso na criança que corre e que procura o toque, o abraço, o beijinho, que quer por o tapete e ir brincar e rebolar no chão, fantasiar, lutar, co-construir e que eu não vou, certamente, negar…
Não será mais seguro, mais tranquilo, mais contentor, mais potenciador de crescimento e de desenvolvimento, nesta fase, em vez de agir sobre a urgência do retomar à tal nova normalidade, podermos em conjunto e passo a passo, construir uma realidade diferente por mais uns tempos em que se pode lutar, brincar, conversar, rebolar, mesmo que através de dois ecrãs (on-line)?
Os afectos não podem ser esterilizados e o brincar também não!



Drª Inês Lamares - Alcochete
O Canto da Psicologia


quinta-feira, 18 de junho de 2020

O Humor e a Pandemia...



                           
A pandemia que estamos viver, está a afetar-nos a todos, sem distinção de idades, profissões, raças ou qualquer tipo de hierarquia social. De um dia para o outro, toda a vida que sentíamos ser a nossa e julgávamos ter sob o nosso controlo, as rotinas e hábitos, as relações com os outros, são-nos tirados. De forma abrupta, percebemos ser necessário mudar o nosso comportamento de forma a podermos adaptar-nos, o mais rapidamente possível, a uma nova forma de estar no mundo. A bem da nossa saúde mental e física.
Após nos ter sido sugerido, para nosso próprio bem, ficarmos em casa, experienciámos um chorrilho constante de mensagens, através dos nossos telemóveis. Um envio furioso e compulsivo. Questionei o porque de todo este envio desmedido? Aparentemente, o vírus transformou o mundo numa fábrica gigante de mensagens com os mais variados conteúdos.
Contudo, algo me começou a inquietar. Tudo servia para fazer piada. As piadas intensificaram-se com todo o tipo de conteúdos, do mais adequado, ao que não fazia qualquer sentido e não tinha assim tanta piada. Parece que estávamos todos a querer transformar o “mau” em “bom”. Todos estávamos a sentir uma forte necessidade de agir, fazermos qualquer coisa. A este propósito, numa conversa com um amigo, ele disse-me: “é assim que o afastamos, com uma boa piada!” É assim que afastamos o quê?
Passada esta azáfama, este “Boom messaging” dos primeiros dias de confinamento, as coisas foram abrandando, já não havia tantas piadas novas e as que existiam “já tínhamos visto”, a novidade de outrora, perdeu-se. E também se perdeu parte da alegria e do entusiasmo. Vamos, gradualmente, confrontando-nos com a realidade que estamos a viver e tudo aquilo que se modificou. Estamos isolados uns dos outros. Passamos a estar mais em contacto com a nossa realidade interior. Questionamos o que é que estamos a sentir.
A alegria é o oposto da tristeza. Fazer piadas torna-nos mais alegres? Mais ou menos. Talvez estejamos a usar essas piadas para tentarmos não ficar tristes. Mas, como assim, tristes?
É normal estarmos tristes. Todos estamos a perder. De um só golpe fomos separados das nossas vidas normais e da convivência com os mais próximos, familiares e amigos. Pense nas coisas mais simples como beijar, abraçar ou tocar. Ou fazer um passeio em família. Na realidade, é uma lista bem grande de coisas que fazíamos e deixámos de fazer. Fomos privados de tudo isso. Por isso é natural estarmos tristes. Quando perdemos coisas que são importantes para nós, lamentamos. A tristeza faz parte do luto. O luto é um processo natural, ajuda-nos e cura-nos. E faz parte da nossa experiência de vida enquanto seres humanos.
Então, quando o humor deixa de servir como “vacina” eficaz para lidarmos com os nossos sentimentos, quando a última piada já não tem piada alguma, aquilo que realmente sentimos é um pouco de tristeza. Não tenha medo de se sentir triste. Pense nas relações mais significativas que tem, procure falar com essas pessoas, partilhar o que sente e o que vai experienciando neste período de maior isolamento. E se precisar, solicite a ajuda de um psicólogo clínico ou psicoterapeuta.



quinta-feira, 21 de maio de 2020

Mãe, quando é que o Coronavirus acaba?




“Nunca mais me vou queixar de ter de ir para a escola”.


Actualmente, esta é a frase mais ouvida pelas crianças que acompanhamos em terapia. Se para nós pais, cuidadores e profissionais a vida mudou de um dia para o outro com a chegada de uma pandemia, para as crianças também mudou.
Como lidam as crianças com este isolamento obrigatório? Com o afastamento dos amigos e da família? Com esta quebra na rotina?
Ficar em casa, longe da escola, dos amigos e das actividades de que gostam pode trazer tristeza e saudades.  A forma como cada criança reage à situação de pandemia e de isolamento social pode variar de acordo com a idade da criança, as experiências anteriores, as circunstancias sociais e económicas da família, a postura dos pais, entre outro factores. É importante ficar atento a possíveis sinais de stress na criança, que podem manifestar-se das seguintes formas:

  •          Choro mais frequente, irritabilidade ou raiva,
  •          Maior necessidade de atenção e de afeto,
  •          Regressão a comportamentos anteriores, como por exemplo, enurese noturna,
  •          Preocupação ou tristeza,
  •          Dificuldades na alimentação e no sono,
  •          Falta de atenção ou concentração,
  •          Desinteresse pelas actividades de que gostava,
  •          Dores de cabeça ou dores no corpo.


Apesar de os pais ou cuidadores se encontrarem em casa, têm de conciliar a vida familiar com a vida profissional. Também vivem as suas angústias com a saúde, com o trabalho e com o futuro económico e tentam lidar o melhor que conseguem com toda a situação. Por isso, muitas das vezes, apesar de estarem mais presentes, nem sempre conseguem estar alerta para as necessidades emocionais das crianças.
A realidade é que existe mais tempo em família, mais tempo para brincar, mais tempo para voltarem a conhecer-se, mais tempo para conversar sobre variados temas, mais tempo para se aproximarem. Assim, deixamos algumas sugestões para aproveitar o tempo que tem com as crianças:
  •         Manter parte da rotina diária habitual e as horas das refeições,
  •         Deixar que as crianças participem nas tarefas de casa,
  •         Apoiar no estudo em casa e manter contactos virtuais com professores e colegas;
  •          Brincar juntos,
  •        Estabelecer um horário para o uso da tecnologia e privilegiar os jogos didáticos e de interação familiar,
  •          Partilhar leituras,
  •          Fazer sessões de cinema,
  •         Criar peças de teatro,
  •         Criar um diário de bordo desta experiência,
  •         Conversar sobre a situação atual de modo a minimizar o medo,
  •         Fazer atividade física em família,
  •         Passear ao ar livre sempre que possível e com as devidas preocupações.


Aproveite este tempo para fortalecer laços e aprofundar relações. As crianças precisam de atenção e é importante que se sintam amadas, protegidas e que saibam que têm alguém com quem conversar sobre os seus medos, o que ajuda a reduzir a ansiedade. E se necessário não hesite em contactar-nos.









terça-feira, 12 de maio de 2020

“Anima Sana In Corpore Sano”






Em momentos tão desafiantes das nossas vidas, como é o que enfrentamos hoje, o tempo deve servir para uma reflexão, para um pensamento mais profundo sobre o que nos motiva, o que nos faz mover e qual o caminho que queremos seguir. São momentos como este que fazem nascer muitas vezes oportunidades para alterarmos hábitos e comportamentos. Enquanto profissional do exercício e saúde, questiono-me algumas vezes se estamos no caminho certo para fazermos com que mais pessoas se mexam e sejam fisicamente activas. Grande parte da publicidade feita por ginásios, clubes, revistas de fitness entre outros, mostram a escravidão do corpo perfeito, do objectivo utópico e inatingível. Fazer exercício quer seja em contexto estruturado (ginásios, estúdios, boxes) ou não, é muito mais ou pelo menos deverá ser, do que o apelo ao corpo musculado e tonificado. Procuramos por vezes, o publico que não precisa de publicidade para chegar até nós.

Eticamente, o profissional de exercício deve garantir competências para prescrever exercício de forma a que este seja um comprimido dado na dose certa. O exercício na dose certa, serve não só para a tal componente estética, mas essencialmente para melhorar a qualidade de vida, prevenção e tratamento de algumas doenças e lesões. Todos estes benefícios, estão associados a uma diminuição da mortalidade por co morbilidades associadas , garantindo uma vida mais saudável e equilibrada. É nosso dever reflectir o modo e a forma de chegarmos a mais pessoas…e talvez este seja o TEMPO!
 Lema “Anima Sana In Corpore Sano”




Bons treinos
Hugo Silva


Instagram: hugo_silva_coach
-Licenciatura Educação Física/Especialização Treino Personalizado
-Pós-Graduação em Marketing do Fitness 
-Pós-Graduando em Strength and Conditioning
-Director Técnico ginásio Lisboa Racket Centre



terça-feira, 21 de abril de 2020

Diz-me como vai o teu sono e eu dir-te-ei que exercício físico precisas...





Continuamos por casa de quarentena e necessitamos de manter uma boa higiene física e mental. Processos de confinamento e de incerteza sobre o futuro, levam muitas vezes a uma desregulação de vários padrões físicos, entre os quais, o sono.

O sono influencia hábitos alimentares, peso, imunidade, metabolismo, etc. Noites mal dormidas durante dias consecutivos, fazem disparar níveis de cortisol, diminuir a hormona de crescimento, testosterona, além de aumentarem a resistência à insulina. Considerando isto tudo, a literatura reforça uma vez mais, que em períodos de isolamento, o treino de força quer seja feito com cargas externas ou apenas o peso corporal, tem um papel preponderante para ajudar a regular os níveis de sono, aumentando sensação de bem-estar, contribuindo para um sono mais profundo, diminuindo stress, ansiedade e ajudando na manutenção de um peso saudável.

O treino de força feito em casa pode e deve passar por exercícios básicos de movimento. Exercícios de empurrar, puxar, rodar, mudar de nível, ou seja, agachamentos, peso mortos, extensões de braços, elevações, press, etc. Optar também por treinos curtos e com pausas mais longas, quando os níveis de stress e ansiedade são elevados.

Caso não tenha experiência de treino, a melhor solução passa por procurar algum profissional de exercício que o ajude a começar a mexer-se em casa, tendo sempre em conta que não existem processos milagrosos. O treino contempla imensas variáveis, internas e externas, sendo que a consistência ao longo do tempo irá ditar uma melhoria na qualidade de vida.

Bons treinos
Hugo Silva



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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Eu não tenho saudades de um abraço! Eu tenho saudades da liberdade de poder dar um abraço...







Eu não tenho saudades de um abraço! Eu tenho saudades da liberdade de poder dar um abraço.

Hoje fui visitar a minha mãe com 82 anos! Sim, fui visitá-la! 

Ouvirei com certeza vozes contestando e  reclamando da minha insensatez e completa loucura, criticando a minha aventura… a quarentena a que me obrigam começa a justificar este entorpecer de racionalidade e levada pela emoção e pelo afecto tenho saudades do abraço da minha mãe ou, saudades da liberdade de poder dar um abraço à minha mãe….

Entre os dois metros de distância a que nos obrigámos e nos olhámos,  havia uma rede, uma rede suficientemente forte e poderosa que não permitiu o nosso abraço, nem o nosso tocar de dedos, nem o contágio do vírus (ele anda por aqui, nunca fiando!). Por instantes,  julguei-me em pleno holocausto, separada por uma rede tentando tocar o intocável;  estas  imagens que vamos lentamente esquecendo e reduzindo-as ao esfumar de memórias, não vividas, mas sabidas, e perpetuadas ao longo do tempo, herança de uma grande guerra mas não desta guerra, por enquanto!

Por instantes, só, só por uns instantes, esta imagem toldou-me o olhar, mas não o sentir! E o seu sorriso, aquele sorriso, aquele olhar ( do qual me lembro tão bem, espelhando uma infância bem longínqua, onde esse mesmo olhar me transmitia segurança, confiança e que tudo ia correr bem, mesmo que os 40 graus de febre, devido à malária, me prendessem a um sem fim de alucinações) resgatou-me, mais uma vez , de um medo paralisante deste principio da realidade que me impede, mesmo  à distância, a mais de dois metros de distância de lhe  dar um abraço e um beijo, perdido no ar, numa imensidão de espaço onde se respira sol, primavera e vida… Eu precisava desse olhar para reforçar a capacidade de esperar...

Não saí do nosso Concelho!! Tão pouco fui a pé! Entre campo, prado, flores e uma rede, suficientemente forte,  demos o nosso abraço, matamos as saudades uma da outra, num  jeito alienado, mas cheio de afecto…

- Já sabes que não temos almoço de Páscoa!!!
- Sei mami!

- Quando pudermos, comemoramos tudo junto: o meu aniversário, o da tua irmã e o almoço de Páscoa.
- Sim mami!

- Deixa-te estar sossegada, não precisas de vir até aqui, falamos pelo telefone e quando quiseres fazemos facetime ou whatsapp!
- Sim mami!

- Agora vai-te embora que está sol e não trouxeste chapéu, e além disso, não devias vir…
- Mesmo que seja só para te ver e matar saudades?

- Não precisas disso. Basta saberes que estou viva e gosto de ti… o resto, o mundo encarrega-se!!


E vim-me embora, cumprindo rigorosamente o que ela me ordenou porque sei que o fez cheia de afecto, carinho e medo!

Para a semana, entramos na semana Santa. Não há Páscoa em família num tempo como o de hoje; assim como não há aniversários, nem casamentos, nem funerais… há só um inabalável sentimento de vida suspensa  e um  futuro refém de um vírus. Mas há o olhar da minha mãe que me diz, "vai tudo correr bem"…  e o olhar dela nunca se enganou.

A si, que me lê desse lado, fique em casa, abrace os seus à distância e sonhe que o está a fazer separado por uma rede feita em pedaços de fantasia… logo, logo, vai tornar este sonho realidade…


Drª.Ana de Ornelas - Lisboa




quinta-feira, 2 de abril de 2020

Porquê fazer psicoterapia? - Reflexões acerca do que torna a relação terapêutica psicodinâmica numa relação única.





Durante a nossa vida estabelecemos muitas relações - umas mais saudáveis, completas ou com um maior potencial de satisfação; outras nem tanto, menos saudáveis, parciais ou com um maior potencial de frustração. A perspetiva psicanalítica ou psicodinâmica observa todas estas relações e, no contexto terapêutico, tem o objetivo de devolver à pessoa (considerando sempre a sua história individual) o que a própria já contém dentro dela, impossibilitada, no entanto, de ver em si mesma.
A relação terapêutica num contexto dinâmico é uma relação única. Um modelo de relação que não se encontra em mais lugar nenhum. Mas mais concretamente o que oferece a relação terapêutica dinâmica ou psicanalítica de tão diferente de outros tipos de relação?

Em primeiro lugar
Em primeiro lugar, e também comum a outros tipos de psicoterapia, a relação paciente-psicólogo é única pelo lugar que a pessoa que vai em busca do autoconhecimento ocupa. Neste contexto, o paciente está em primeiro lugar, num lugar de destaque. É um espaço privado e particular para cada pessoa - durante aquele tempo e aquele espaço a única pessoa importante é de facto a pessoa à nossa frente - o que diz, o que não diz, o que sente e o que não se permite a sentir.
O outro lugar
No entanto, este lugar destacado do paciente não é por si só suficiente para afirmar a singularidade da relação terapêutica psicanalítica. O lugar do psicólogo é bastante importante no sentido do que o profissional pode oferecer à pessoa que procura compreender-se melhor. Este lugar abarca então a formação do profissional - de onde advêm ferramentas essenciais para a compreensão do paciente nesta relação - e o próprio investimento pessoal do profissional. Um bom profissional nesta área faz ou já fez o seu próprio processo psicoterapêutico e também supervisão (processo onde se discutem os casos, mantendo sempre a privacidade e o anonimato, de modo a refletir potenciais pontos cegos do psicólogo sobre os seus pacientes) - possibilitando assim um olhar sobre si e sobre o outro bastante mais claro e desintoxicado de algo que não pertença a cada relação terapêutica em particular.

Novo lugar
Até agora, como algo que não se encontra em mais nenhuma relação, podemos observar duas particularidades. A primeira que destaca o paciente, e a segunda que tem que ver com o investimento do profissional. Em conjunto e na relação estabelecida, o espaço total para o paciente dentro da sessão e o espaço interno de compreensão por parte do profissional permitem a reflexão desintoxicada acerca do paciente – permitem o espaço para o novo. Existe ainda algo especialmente particular relativamente à perspetiva psicanalítica ou psicodinâmica, metaforizando: é como se existisse uma estrada em que o paciente é o condutor de um carro e o psicólogo o seu copiloto. Quem escolhe o caminho é de facto a pessoa que conduz. A função do copiloto passa por estar atento a todos os outros fatores que possam prejudicar ou ajudar o piloto na sua condução - os obstáculos no seu caminho; o caminho já percorrido; o estado do carro; o estado do piloto, ... - mas nunca escolher o caminho pelo piloto, uma vez que não é essa a sua função. É o paciente que é visto como o maior detentor de conhecimento acerca de si mesmo e, portanto, é este que conduz o caminho da sua análise. Voltemos então a olhar novamente para o lugar do psicólogo de perspetiva psicanalítica. Este, de forma a observar tudo como realmente é para cada pessoa, precisa de escutar aquilo que a pessoa diz, o manifesto, e escutar também aquilo que a pessoa não diz - aquilo que está escondido naquilo que está a ser dito e que, por alguma razão, não está a ser falado - o latente. Voltando à metáfora anterior, faz parte da função do copiloto (psicólogo) estar atento tanto ao caminho que está a ser feito pelo piloto (paciente) como aos ângulos mortos impossibilitados de serem vistos por este, por estar a desempenhar outra função, já exigente por natureza, conduzir.
Concluindo, este novo lugar que se cria entre o paciente e o psicólogo tem espaço para acontecer uma vez que existe um olhar em relação ao que está manifesto e ao que está escondido, em conjunto com os lugares ocupados pelo psicólogo e pelo paciente acima descritos. Na relação terapêutica é elaborada a dois uma mistura exclusiva, especial e particularmente íntima apenas possível de se experienciar num processo psicoterapêutico ou de psicanálise. 



Dr. Sérgio Pereira - Setúbal
O Canto da Psicologia