quinta-feira, 2 de julho de 2020

A esterilização dos afectos...




Em tempos como estes, em que temos regras sobre como podemos estar e interagir é-nos solicitado, a todos, que nos readaptemos a uma realidade que já vai sendo mais conhecida, mas que continua a ser, creio eu, estranha.
No início parecia mais fácil esterilizar, desinfectar, limpar onde tocamos, por onde passamos, talvez por momentos até tenhamos esterilizado o que sentíamos e o que pensávamos, tendo pouco espaço para fazer mais do que aquilo que sentíamos efectivamente necessário e urgente no momento.
Cada vez mais fala-se no retomar a uma nova normalidade, uma nova normalidade necessária, pelo menos no que diz respeito à economia. Quando mais oiço falar na necessidade de retomar, de voltar a fazer as coisas que sempre fizemos, fico eu própria com uma sensação de ambivalência que me faz parar e pensar… claro que precisamos todos que as coisas vão voltando ao normal, que os pais regressem ao trabalho, que as crianças voltem às creches e às escolas, que tanto adultos como crianças possam voltar a praticar as suas actividades e que voltem aos seus locais de saúde, refiro-me claro aos consultórios onde são acompanhadas, nas suas diversas modalidades.
Mas como isolamos o contacto com uma criança? Como esterilizamos a necessidade do afecto, do abraço, do toque… como esterilizamos o brincar? Como podemos fazer lutas entre cowboys e soldados? Como podemos construir sem partilhar? Será possível esterilizar esta parte? Automaticamente quando penso nisto, penso em crianças e adultos ansiosos, deprimidos, doentes até! E fica em mim um grito surdo “o que a mente cala o corpo fala”, famosa frase de António Coimbra de Matos.
Como contemos uma criança seja no consultório, seja na escola, sem lhe podermos tocar? Sem elas poderem olhar e ver a nossa expressão (escondida por detrás de uma máscara)?
Falo de crianças dado os óbvios obstáculos em termos de desenvolvimento, mas penso também nos adultos, no fundo, penso em todos nós… como podemos integrar a nossa experiência, estruturar o nosso eu, organizar as nossas relações interiormente, elaborar as coisas que sentimos e pensamos sem a possibilidade da contenção de um abraço? No fundo, na ausência da experiência do afecto.
Onde, dentro de nós, colocamos o “temos de estar isolados” ou “precisamos de uma distância de segurança para existir” ou até a impossibilidade do “vem cá que eu dou-te um abraço ou um beijinho…”
Será que este retomar à “nova” normalidade está a ter em atenção a nossa saúde mental?
Como é que na escola gerem, no caso dos mais pequenos, as distâncias de segurança? O não poderem tocar-se para brincar? O não poder dar um beijinho ou um abraço quando alguém se aleija?
Penso em todas as crianças (e adultos) que acompanho e que tenho vindo a acompanhar em modalidade on-line, penso no voltar ao consultório, de máscara, talvez com algumas fantasias que não são, certamente, terapêuticas (será que aquela criança ou adulto está seguro ali? Será que eu própria estou segura?), penso na criança que corre e que procura o toque, o abraço, o beijinho, que quer por o tapete e ir brincar e rebolar no chão, fantasiar, lutar, co-construir e que eu não vou, certamente, negar…
Não será mais seguro, mais tranquilo, mais contentor, mais potenciador de crescimento e de desenvolvimento, nesta fase, em vez de agir sobre a urgência do retomar à tal nova normalidade, podermos em conjunto e passo a passo, construir uma realidade diferente por mais uns tempos em que se pode lutar, brincar, conversar, rebolar, mesmo que através de dois ecrãs (on-line)?
Os afectos não podem ser esterilizados e o brincar também não!



Drª Inês Lamares - Alcochete
O Canto da Psicologia


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