quinta-feira, 30 de julho de 2020

Aprender a viver com um sintoma - ecos de uma entrevista ao escritor João Tordo...




Há uns tempos, ao regressar a casa do trabalho, ouvi na rádio uma entrevista que me fez refletir sobre como escolhemos uma profissão, ou muitas vezes, como somos escolhidos por ela, mediante as nossas vivências. Era uma entrevista ao escritor João Tordo, formado em filosofia, jornalista, guionista e autor de 13 romances publicados aos 44 anos de idade.
O que me chamou a atenção foi tanto o curto resumo que fez da sua primeira infância, que descreveu como não tendo sido “um lugar particularmente harmonioso”; como a gaguez, que o acompanhou desde criança e que, segundo ele, o ajudou a ser o que é hoje. Os caminhos mentais que tinha de percorrer para tentar evitar determinada palavra que poderia desencadear um episódio de gaguez, as narrativas alternativas que construía e o vocabulário que ia descobrindo neste processo, foram, segundo o Autor, uma tentativa de ordenar o caos de um “miúdo perdido” através de uma forma de expressão.

O sintoma tem de ser sempre entendido na história pessoal e contexto de cada pessoa.  Como tal, o meu interesse não é analisar a gaguez do João Tordo, até porque não teria legitimidade para isso. O que me pareceu fascinante é a forma como descreve um aprender a viver com o seu sintoma e até colocá-lo ao serviço de uma paixão, e ulteriormente de uma profissão. Freud diria, a propósito deste tema, no texto O Mal-Estar na Civilização (1930), que a atividade profissional proporciona uma satisfação particular quando é escolhida livremente, de modo a possibilitar o uso por sublimação das pulsões não recalcadas. A sublimação será sempre uma história singular, de um sintoma particular e de pulsões que se conseguem ligar a atividades socialmente valorizadas, por vezes logo desde a infância, como se vê neste caso.

Do relato do autor é possível perceber que inventar histórias e palavras novas permitiu-lhe reduzir o mal-estar associado à gaguez (ele fala de vergonha em relação aos pares) e trouxe-lhe também um benefício secundário, oferecendo-lhe as ferramentas para escrever. Parece-me igualmente notável o entusiasmo com que relata o seu primeiro encontro com a leitura e os romances, como género literário, como se esta peça encaixasse na perfeição naquela que era a sua solução criativa e singular para este sintoma. 

Por vezes, é difícil encontrar uma solução mais ou menos harmoniosa que nos permita seguir o nosso caminho, ou o sofrimento que o sintoma traz é demasiado esmagador e paralisante para procurar uma saída sozinho, e nesses momentos é fundamental pedir ajuda.
O trabalho psicoterapêutico oferece um espaço seguro e uma relação na qual se pode encontrar apoiar para descobrir as suas próprias respostas e soluções, construir sublimações e assim, como dizia o escritor João Tordo, ordenar o caos.

Psicologia à parte, resta-me esperar pelo seu novo livro que, a avaliar pelo título, promete ser muito interessante: “Manual de sobrevivência de um Escritor”.





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