terça-feira, 31 de março de 2020

... e o exercício físico continua....





Nestes tempos em que isolamento social é imperativo, há que organizar estratégias para que em casa, continuemos a ser ativos.

Um estudo já com alguns anos, pretendeu testar os efeitos do treino intervalado de alta intensidade (HIIT) em casa e sem material. O estudo consistia no seguinte: dividiram mulheres no período pós menopausa em dois grupos: de um lado um treino normal de 30 minutos de caminhada, mais treino de musculação, do outro, treino HIIT feito em casa com 10 séries de 1 minuto, subidas num degrau e agachamentos com o peso corporal, com 1 minuto de intervalo. Tanto o treino tradicional, assim como o HIIT foram executados 3x por semana, durante três meses.

No fim, o resultado dos dois grupos foi muito semelhante, havendo melhorias ao nível da performance e da massa muscular, entre outros fatores cardio-metabólicos.

Este estudo, mostra que em tempos de contingência, as possibilidades vão para além do convencional. Ao aluno, abre novas perspetivas, podendo treinar com pouco ou nenhum material. Aos profissionais de exercício físico, que poderão através das tecnologias, utilizar o treino online como forma de chegar ao domicílio dos alunos.
É fundamental manter a rotina de exercício físico, para manter mente e corpo sãos.

Bons treinos


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quinta-feira, 26 de março de 2020

Resiliência em tempos de coronavírus...






Nestes tempos difíceis que todos passamos apraz-me falar sobre o que de bom podemos observar, o que de bom descobrimos de nós e dos outros, o que de positivo se pode retirar desta e de qualquer situação negativa. Vivemos todos a angústia desta invasão por uma espécie de inimigo invisível que interrompeu o decurso normal das nossas vidas e nos encheu de incertezas. Mas apesar disso, o ser humano tem uma capacidade incrível para responder aos desafios e às adversidades, de reagir e encontrar forças, em si e nos outros, de procurar meios, de recorrer à criatividade…

Vemos pessoas a unirem-se para entregar bens essenciais aos mais idosos; vemos artistas a reunirem-se para proporcionar momentos prazerosos e sensibilizarem para a necessidade de ficar em casa; vemos como o movimento “Vamos todos ficar bem” é uma forma de dar alento ao próprio e a todos os outros; vemos como os profissionais de saúde lutam todos os dias para garantir o bem estar de todos, como as pessoas que trabalham nos supermercados, lares e tudo mais, trabalham para garantir o bem estar de quem cuidam, para manter a normalidade e a subsistência de todos; vemos como já há pessoas a produzir mais meios de proteção ou de resposta médica como é o caso do Projecto Open Air; vemos grupos de apoio nas redes sociais sustentados por profissionais de saúde... Entre outros… Felizmente os exemplos são muitos e variados.

Sabemos que as dificuldades são e serão muitas, mas sabemos também que somos capazes de as enfrentar e superar. A isto se chama Resiliência, um conceito que a Psicologia importou da Física, que define a capacidade de alguns materiais voltarem ao seu estado ou forma natural depois de sofrer um choque ou pressão deformadora.
Esta ideia de enfrentar a adversidade regressando depois ao estado anterior, natural, (não exatamente ao mesmo, porque evoluímos…, mas antes nos mesmos moldes, sem marca disruptiva na identidade do sujeito) implica acentuada flexibilidade dos mecanismos psicológicos num esforço adaptativo considerável.

As “regras do jogo” mudam de forma repentina e substancial e a pessoa vê-se obrigada a um rearranjo do funcionamento mental onde a construção de uma narrativa, de uma nova narrativa, auxilia de forma incontestável. Esta (re)construção é muitas vezes mais fértil a posteriori mas ainda assim desejavelmente iniciada desde logo. É importante que vão acontecendo em paralelo, respostas concretas à situação que se vive, como o isolamento neste caso, e respostas do foro psicológico, dizendo respeito à elaboração mental da nova situação vivida. Estes processos mentais são suportados por um atribuir de sentido(s), que permite à pessoa integrar os novos dados e como que apropriar-se de alguma forma dessa nova realidade, podendo começar a fazer parte da sua identidade sem deixar (demasiada) mossa.  O impacto deverá ser passível de integração, não se quer nem invasivo, naturalmente, nem ausente, porque bem se sabe, negar a realidade não traria nenhum benefício.

Ou seja, trata-se de encarar a realidade e viver os sentimentos mais difíceis, como ansiedade e angústia, reagindo e elaborando no sentido de os acomodar da forma menos perturbadora possível e com potencial de suportar uma continuidade salutar do ser e existir. Boris Cyrulnik, no seu livro “Uma infelicidade maravilhosa”, descreve-nos de uma forma exímia o que falo sobre a resiliência, diz-nos:

Tal como a felicidade, a infelicidade nunca é pura. Mas, assim que construímos a sua história, conferimos um sentido aos nossos sofrimentos e compreendemos, muito tempo depois, como pudemos transformar um infortúnio em algo de maravilhoso, pois qualquer homem agredido é obrigado a metamorfosear-se.








quinta-feira, 19 de março de 2020

A pandemia Covid-19 Como o ser Humano reage perante a crise? Quais as possíveis consequências a nível psicológico?





Como psicóloga só posso comentar e avaliar do ponto de vista psicológico e comportamental, de como o ser humano, tendencialmente, reage perante quadros de emergência ou crise geral. Assistimos a tempos desafiantes, um estado de emergência quase mundial, devido a um vírus Covid-19, pouco estudado, embora existam cientistas a debruçarem-se sobre esta área de investigação, sim o vírus, irá ser devidamente avaliado, controlado por vacina, é só uma questão de tempo e tudo vai ficar resolvido.
Contudo ainda não estamos nesse ponto, não há vacina, nem conhecimento cientifico esmiuçado sobre o comportamento do vírus, como tal, o que sabemos cientificamente é que a velocidade de propagação da infeção do vírus é exponencial, quantos mais contactos sociais, maior a inevitabilidade do aumento de infetados, assim como que o contágio é muito facilitador. Por favor não entrem em pânico, que não serve de nada e apenas aumenta o problema mas, também, não desvalorizem e facilitem, nem 8 nem 80!

As duas reações mais comuns num quadro de crise são em primeiro lugar, a negação, ou seja o sujeito não consegue conceber que está em crise e tem um problema e então ignora-o, como mecanismo de defesa, o que pode durar mais ou menos tempo. Exemplo da desvalorização: “a mim não me acontece”, “tenho uma saúde de ferro, um sistema imunitário forte é só aos outros”, “que exagero esta situação, não percebo”, “não vou mudar as minhas rotinas diárias”, “não se passa nada de especial é só preciso algum cuidado”. A outra reação à crise é, entrar em colapso, pânico e já não se sabe o que se está a fazer, uma vez que o pensamento lógico fica toldado e incongruente, perante ansiedade em excesso, nomeadamente; “isto vai contaminar todos e vamos morrer, “não podemos sair nunca nem respirar nada”, “vamos fechar os centros comerciais e a restauração às 21.00 (como se houvessem horários para o vírus) ”, “fazemos quarentena a meio gás”.

 Agora imaginemos que uma das respostas ao stress é a junção destas duas, desvalorização do problema (negação), mais desorganização (pânico), ficar com excesso de ansiedade, ora é o acontece, quando entramos num choque de perigo do desconhecido, podemos considerar que é o que se está a observar em algumas pessoas.

Assim estamos a ser bombardeadas com notícias que nos contam sobre o “impossível”, sobre o que consideramos que nunca podia acontecer e agora temos o perigo “invisível” do vírus covid-19, pode ser um evento traumatizante que deixa consequências quer na vítima direta, quer nos familiares próximos com repercussões psíquicas.

O nome científico para denominar a perturbação que se pode desenvolver após a crise é o Stress Pós Traumático, como o próprio nome indica consiste, num trauma psíquico provocado por um evento externo que não é previsível, nem controlado, dado fator de susto que provoca a experiência intensa e que impede a capacidade de equilíbrio emocional, face ao medo, desamparo da situação.
A Associação Americana de Psiquiatria define o conceito, trauma como uma experiência individual direta de um evento que envolva morte, ameaça de morte ou ferimento grave, ou outra ameaça à integridade física; ou observar um acontecimento de morte, ferimento grave ou ameaça à integridade de outra pessoa; ou ter conhecimento de uma morte violenta ou inesperada, ferimento grave ou ameaça de morte experienciada por um familiar ou amigo próximo. No caso atual, do Corona Vírus, o que temos é a experiencia psíquica da possível ameaça de morte iminente, mais direcionada, ao próprio ou ao outro, provavelmente familiares mais idosos. Pelo que também é uma experiência que causa sofrimento psicológico.

O ser humano naturalmente procura uma homeostase, um equilíbrio bio-emocional para poder funcionar no seu dia-a-dia. O impossível acontece quando um evento imprevisível sucede e retira alguma confiança e tranquilidade na vida e no seu natural curso. A capacidade do ser humano resistir e conseguir regular as suas emoções, de modo a criar significado para a experiência, vai depender da resiliência de cada sujeito, assim como, de fatores relacionados com organização psíquica, personalidade e experiências de vida. Como tal, esta regulação emocional e superação, tem um caracter subjetivo, embora o apoio psicoterapêutico, seja fundamental para apoiar a vítima em todo este processo, bem como, todo o apoio comunitário que favoreça o sentido de pertença nas pessoas.
 Perante a ocorrência de um acontecimento traumático o sujeito reorganiza uma nova forma de estar e de ver o mundo que o rodeia, o que pode gerar uma mudança significativa nos seus padrões de funcionamento psíquico. Sendo que a forma mais saudável de reagir, perante a crise será após o período de ansiedade que é normal; 1) aceitar que é uma crise, mas que vai passar, com o tempo e ter uma postura otimista, que tudo vai melhorar. 2) Ser proactivo e criar novas formas de lidar de forma flexível com a situação, capacidade de adaptação à realidade presente e aceitar as mudanças na rotina de vida.

 Normalmente, sentimos o mundo como um local seguro e relativamente controlável, considerando as mais diversas ações e tarefas que desempenhamos durante o quotidiano, como asseguradas por nós e, por isso, dentro do nosso controlo, pelo que decidimos o que queremos e não queremos fazer, aquilo que pensamos e recordamos. No entanto, na sequência de um acontecimento traumático, existe um reajuste na nossa maneira de ver o mundo, que leva o seu tempo a resolver. 
Assim sendo uma construção de personalidade rígida ou inflexível, poderá dificultar este processo de reajustamento do sujeito, dado a necessidade implícita de controlo, por outro lado uma personalidade mais plástica e adaptativa terá, á partida, outros recursos, para que com o passar do tempo, possa superar o evento traumatizante com maior tranquilidade.
Deste modo devemos estar calmos, mas atentos, confiantes, mas assertivos, na proteção de todos, se seguirmos as recomendações, iremos sair disto ainda mais fortes e unidos. O sacrifício maior será o isolamento, dado que o ser humano é um ser sociável por natureza, por isso é altura de abusarmos dos meios de comunicação virtual e procurarmos este tempo de calma, para organizar a nossa casa interna psíquica e construirmos projetos e sonhos futuros. Assim sendo todos temos uma parte ativa no combate a esta epidemia, não tenhamos medo do nome, mas, também não vamos ignorar o que se passa, o equilíbrio é a chave.






quinta-feira, 12 de março de 2020

A era virtual como contenção à epidemia viral - Coronavírus e os desafios psicológicos...







- “Até para a semana Dra., isto se não estivermos todos de quarentena”. 
A resposta foi simples, com alguma prontidão e com um sorriso a acompanhar: 
- “Se estivermos de quarentena,  encontraremos uma alternativa virtual, não se preocupe.”


É desta forma que muitas sessões de psicoterapia têm terminado esta semana aqui pelo Canto da Psicologia. E também este, tem sido o tema dominante das consultas, onde são expressados e elaborados vários pensamentos sobre o novo Coronavírus.

Este é um fenómeno com características e consequências particulares que está a colocar à prova todas as áreas da nossa sociedade. É inevitável não falar ou pensar sobre ele!
Por momentos até parece que estamos a participar numa obra cinematográfica de Hollywood ou numa série da Netflix. Mas não, a realidade do Coronavírus (Covid-19) está efectivamente presente e não existe outra alternativa a não ser lidar com o seu aparecimento da forma mais ponderada possível. 

- “… Dra. eu já sou muito ansiosa com tudo e agora isto…, não sei o que fazer…”

Uma doença com estas características é por si só um acontecimento real assustador, devido a todas as incertezas inerentes, mas também pela proximidade com o adoecer físico e com a morte. A rapidez de propagação e o facto de ser transversal, coloca-nos emocionalmente numa posição de vulnerabilidade muito grande. 

Todos nós temos um funcionamento psicológico único que se protege dos eventos sentidos como ameaçadores, de forma especial, vamos reagindo com alguns receios e angústias de acordo com a nossa história e vivências do passado. É então natural que as pessoas que sofrem de ansiedade se sintam mais alarmadas e se foquem muito mais neste tema. 
Por outro lado, é nos momentos de crise que, habitualmente, tendemos a reagir de forma mais ansiosa, agressiva, receosa, irritada, instável, onde os sentimentos de desorganização, inquietude, tristeza e desespero são exponenciados.

A verdade é que a epidemia já se instalou e todos, de uma forma ou de outra, nos estamos a adaptar e a preparar para lidar com este acontecimento.

Será que o fazemos da mesma forma? Será que adoptamos os mesmos mecanismos de sobrevivência? Qual é a forma certa de o fazer? E, psicologicamente quais são as melhores estratégias a adoptar? Não há uma resposta única e solucionadora, mas a boa notícia é que existem diversas formas de o fazer. Talvez seja a altura de utilizarmos os artefactos da era virtual e do conhecimento a nosso total favor!

Isto não significa que devemos estar conectados de minuto a minuto a acompanhar as notícias sobre o Coronavírus, pelo contrário. É importante mantermo-nos informados para nos organizarmos e estarmos preparados mas, o acompanhamento das notícias deve ser feito pontualmente e com pouca frequência. 

Sermos criativos e identificarmos novas formas de estar e suportar a rotina, adaptando-a aos conselhos e diretrizes das entidades governamentais é um movimento necessário. 

Termos consciência que é um fenómeno já instalado e que será inevitável a sua presença, é fundamental porque ajuda-nos a preparar possíveis cenários que a qualquer momento podem ocorrer, como por exemplo, o encerramento das escolas, a proximidade com alguém que foi contagiado ou até com as prateleiras vazias no supermercado. Assim, não somos surpreendidos e os níveis de ansiedade e surpresa são ultrapassados de forma mais serena.

Estarmos atentos aos mais próximos e apoiarmos quem tem mais dificuldade em enfrentar este acontecimento é também uma estratégia essencial, mostrar a nossa solidariedade e sentido de responsabilidade para com os que se encontram mais angustiados e por vezes até apáticos sem saber como agir.

Os mais novos devem ser tranquilizadas, mas informados. Os medos de uma forma geral, fazem parte da vida das crianças mas, nesta altura desafiante para o mundo e no que diz respeito ao Coronavírus é importante que este não seja um assunto omitido, nem um assunto colocado em forma de pânico. O tema deve ser falado e abordado, de acordo com a idade, de forma clara, evitando mistérios, mas com conforto e segurança de modo a não ficarem assustados.

Depois de nos reinventarmos, de usufruirmos das redes sociais e das novas tecnologias como aliados na distracção e contenção da epidemia, resta-nos aguardar que a desordem trazida pelo Coronavírus dê tréguas e possamos reorganizarmo-nos.

O trabalho dos psicoterapeutas e o acompanhamento psicológico assumem um papel relevante em alturas de crise e por isso, aqui, n’ O Canto da Psicologia, mantemo-nos disponíveis e ao Alcance de Todos, já adaptados e preparados para fazer face a esta época viral.


Drª Fanisse Craveirinha - Setúbal
O Canto da Psicologia






terça-feira, 10 de março de 2020

Exercício físico, um antidepressivo natural...







Num mundo tão agitado como o de hoje, há cada vez mais pessoas a sofrerem de depressão! A depressão é já considerada uma doença grave, que atinge várias faixas etárias, sendo mais frequente em pessoas idosas.

Uma das estratégias passa pelo exercício, uma vez mais!

Mais de 10 mil mulheres foram avaliadas para verificar se havia correlação entre hábitos regulares de atividade física e bem-estar mental e psíquico. O estudo foi conclusivo, verificou-se que as mulheres mais ativas, tinham níveis mais elevados de bem-estar. No mesmo estudo verificou-se ainda o seguinte: mulheres que eram fisicamente ativas e se tornaram sedentárias, ficaram mais frágeis física e mentalmente, as que eram sedentárias e se tornaram ativas, melhoraram a vitalidade e a saúde mental.

Não é demais reforçar a ideia que, independentemente da idade, o exercício físico regular deve ser considerado como um antidepressivo natural.

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quinta-feira, 5 de março de 2020

A importância dos contos tradicionais infantis no desenvolvimento das crianças...






Os contos tradicionais infantis, segundo o psicanalista Bruno Bettelheim, exercem uma função psicoterapêutica nas crianças respondendo de forma precisa às angústias do universo infantil. O rei e a rainha são os símbolos nos quais a criança projeta os bons pais, gratificantes, assim como a madrasta, a bruxa má e o ogre constituem as figuras dos fantasmas que eles sentem em diversas situações nos seus progenitores, como sendo maus e frustrantes. Assim, os contos descrevem situações inconscientes que a criança reconhece como uma passagem que lhes permite o acesso a todo um processo inconsciente de maturidade e o modo de vencer as suas inseguranças, medos e fantasias que os impediram de ultrapassar as suas resistências, de crescer e se fortalecer. Identificando-se com os seus heróis, as crianças consolidam aspetos importantes da sua personalidade descobrindo novas ferramentas que lhes permitem outro olhar para os desafios que se avizinham. Através de vários contos populares como a Branca de Neve ou a Bela e o Monstro, Bruno Bettelheim analisa e mostra como esses contos respondem às ansiedades das crianças, dando-lhes pistas dos "testes" futuros e dos esforços a serem feitos antes de atingirem a idade adulta. O autor coloca em perspetiva diversas versões dos contos e mostra, segundo o seu entendimento, quais os que correspondem melhor à estruturação psicológica da criança. Na prática psicoterapêutica, a criança é induzida a escutar, ler, folhear os contos para seguidamente os reconstruir, alterando-os ou não, conforme as suas necessidades através do desenho, da dramatização, escolhendo aqueles que mais se aproximam das suas problemáticas e dramas pessoais, ao seu tempo e de acordo com a sua metodologia e criatividade. O psicoterapeuta vai acompanhando e ajudando através das interpretações, procurando em conjunto com a criança, as soluções mais adequadas à resolução das problemáticas vividas. Cada conto tradicional é um espelho mágico que reflete certos aspetos do mundo interior da criança, fornecendo em simultâneo, dicas e passos importantes que visam promover uma salutar transição entre a dependência infantil e a dependência madura. Para aqueles que mergulham naquilo que o conto de fadas procura transmitir, torna-se num lago pacífico que, num primeiro momento, parece refletir a nossa imagem, mas por detrás dessa imagem, emerge o tumulto interior das nossas mentes, da sua profundidade e da melhor forma de nos colocarmos em paz com ela e com o mundo exterior, que nos recompensa através dos nossos esforços.





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Ode ao brincar: Eternizemos o brincar de faz de conta!






“Aquilo que há em nós de criativo é infantil, ou vem da infância, é aquilo que fica vivo da infância, e a infância, por definição, é criativa, porque cria a própria pessoa.”
João dos Santos, 2000


Deverá ser do senso comum que brincar é uma ação promotora de saúde: do corpo e da alma. É o primeiro idioma da infância. Falar de brincar remete-nos, inevitavelmente, ao tempo do faz de conta, da comunicação simbólica, através da qual a criança desfrui dos deslocamentos e das metáforas que ela possibilita e por intermédio das quais uma coisa pode ser tomada por outra – uma fita pode ser uma coroa de princesa, uma caixa pode ser um avião, um pano uma capa de super-herói, um lápis uma varinha mágica.

Brincar expressa afeto, criatividade, fantasia, mas também, agressividade e rivalidade. É uma forma de ação sofisticada, representativa e simbólica. Brincar vive nas imediações dos sonhos. Ambos os atos dispensam palavras. A criança sente-se livre para experimentar tudo o que quiser, ela pode ser tudo e, nesse brincar não se sentam para falar como os adultos, encontram no lúdico a forma preferencial de enunciar o que se encontra no seu arquivo inconsciente. Assim, em psicoterapia com crianças, o jogo é muito mais que uma simples brincadeira. É a porta de entrada para o mundo interno da criança.

A atividade lúdica proporciona também o domínio e a integração de experiências difíceis e traumáticas, transformando o passivo em ativo (Freud, 1920).

Éo brincar que nos conduz aos relacionamentos sociais, ligando-nos ao outro  que, até lá, estava imbuído de estranheza e desconfiança. E é na relação e cooperação com este outro que aprendemos a pensar, a criar e, também, a permitir a frustração do erro e do insucesso. De forma efetiva, aprendemos a importância da negociação e da partilha, lidamos com as regras e desenvolvemos argumentação para a resolver conflitos. Brincar é expandirmo-nos enquanto pessoas.

Ao brincar, dançamos com a arte e com ela construímos identidade e singularidade. É no brincar, e talvez apenas no brincar, que acriança e o adulto usufruem da sua liberdade de criação.

Por tudo isto e por muito mais que haveria a refletir, brincar é algo valioso e terapêutico por si só. Permite às crianças pensar, imaginar e construir significados, analogamente ao adulto com a linguagem verbal.

No mundo da imaginação, onde as possibilidades são infindas, as crianças elaboram aspetos desejados, proibidos ou rejeitados de si mesmas, consideravelmente com menos conflitos. Modificar a história ou interromper a brincadeira para iniciar outra, possibilita-as a regularem-se emocionalmente. Brincar é estar, em simultâneo, no mundo real e no mundo da imaginação e dentro dela, é possível enfrentar os maiores dilemas morais; morrer; matar; ser o melhor amigo ou o mais férreo inimigo.

A importância do Brincar está amplamente estudada e evidenciada pela comunidade científica. No contexto clínico, assume-se como uma ferramenta com capacidade diagnóstica e terapêutica, pois cria a possibilidade de a criança expressar a sua realidade psíquica, e concomitantemente, permite ao terapeuta identificar formas de ajudar a criança na elaboração dos seus conflitos e no seu desenvolvimento afetivo, cognitivo e social.


Drª. Soraia Almeida
O Canto da Psicologia - Braga



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Homem o suficiente ou o medo de não o ser...




O Luís conta-me que não se sente muito atraído por homens com características mais femininas – e aqui ele refere-se à forma de vestir, maneirismos, preferências. Contudo, acrescenta, também não se sente atraído por homens “Bear” ou “Urso” os quais para ele estão associados a  uma masculinidade demasiado “gráfica” e que ambos pensamos, talvez sirva para mascarar qualquer aspecto ligado ao feminino que pudesse aparecer. O Luís concorda com esta ideia e acrescenta que é muito difícil para os homens com uma orientação homossexual – em específico – exporem aspectos que tradicionalmente possam estar mais associados à feminilidade como a vulnerabilidade, necessidade de protecção, alegria, sem o perigo de se tornarem demasiado femininos. Conta-me que com a população masculina de orientação heterossexual é diferente, dando-me o exemplo de um amigo em comum, heterossexual e dizendo: “ por exemplo, o Manuel, usa o que quer e nunca deixa de ser masculino. Se fosse eu, ia parecer uma bicha”.

Neste caso, o Luís refere-se sobretudo à forma de vestir do Manuel e à expressão da sua sensibilidade através dos gostos e opiniões que manifesta, no geral. De certa forma, o Manuel é mais capaz de se expor, do que o Luís. Contudo, o que o Luís não sabe é que o Manuel desabafou comigo sobre sentir tantas vezes ser difícil definir, enquanto homem, os limites entre o feminino e o masculino, sentindo muitas vezes não corresponder ao estereótipo do masculino. Foi o Manuel que me disse que o preconceito de não se ser homem o suficiente, põe em causa a masculinidade.

O resumo dos diálogos que tive com ambos os  amigos, em alturas separadas, pretende apenas funcionar como ponto de partida para a reflexão em torno de algumas questões ligadas à construção das masculinidades e do feminino que nelas se inscreve. Não se trata portanto, de material clínico, apesar de levantar questões comuns às de muitos jovens adultos que vou ouvindo, em contexto de gabinete.

Segundo Benjamin (1988), psicanalista americana, nas sociedades ocidentais, as imagens culturais subjacentes à masculinidade geralmente continuam a significar ser-se racional, protector, agressivo e dominador, enquanto as imagens subjacentes à feminilidade costumam significar ser-se emocional, receptiva, afectiva, cuidadora e submissa. Estas imagens parecem obedecer a uma ordem social ligada à força binária, assente numa reprodução da complementaridade de géneros masculino e feminino enquanto constructos distintos e opostos.

Penso na afirmação de Stoller (1985), psiquiatra americano,  The first order of business in being a man is don`t be a woman” e automaticamente também na angústia do Luís e do Manuel quando me falam da dificuldade em exporem aspectos que tradicionalmente possam estar mais ligados ao feminino sem o perigo de se tornarem mulheres.

Independentemente da orientação sexual, é relativamente comum para os meninos, rapazes, adultos serem chamados, com mais ou menos frequência, de “maricas”, “bicha”, “paneleiro”. Sob este ponto de vista, o feminino é encarado como um sintoma negativo (Corbett, 1996), contido em cada uma destas injúrias narcísicas.

Ducat (2004) cria o termo “femiphobia” para assinalar o repúdio do homem pelo seu self feminino. O preconceito interno e externo do masculino em relação ao feminino instala-se, comprometendo o saudável desenvolvimento do sujeito através de uma organização fálica defensiva, negando aspectos ligados à capacidade procreativa e possibilidades de afecto e criação de um homem (Fast, 1984).

Tal como Luís,  o Manuel afirma sentir-se ambivalente em relação à definição dos limites entre o feminino e o masculino. A dificuldade do Manuel poderá talvez ser validada por Corbett (2009) que afirma que todos os géneros têm falta de coerência e são atormentados pela ansiedade. Grayson Perry (2016), um artista plástico inglês, escreve, meio a brincar meio a sério,  que existe um Departamento da Masculinidade que se encarrega de enviar os seus funcionários na recolha de informações acerca do que é ser masculino numa variedade de fontes -  pais, professores, televisão, livros, filmes. Os funcionários instalam-se dentro da cabeça de cada homem e enviam instruções através de uma voz interna inconsciente que serve como intercomunicador. Estes funcionários têm como tarefa patrulhar os limites do género e assegurar que todos os membros da cultura masculina respeitam e agem em conformidade (Buchbinder, 2013).  Os que não o fazem podem sentir-se como o Manuel – a não corresponder ao estereótipo do masculino.

As questões ligadas à identidade de género e, neste caso mais concreto, à masculinidade, são transversais a todas as Pessoas, quer sejam homens, mulheres, transexuais, intersexuais, homossexuais, heterossexuais ou assexuais. Podem ser pensados e debatidos em muitos lugares,  mas com certeza de forma aprofundada durante um processo psicoterapêutico, se tal se justificar.






quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A delicada arte de amar...



O amor é delicado. Envolve respeito, atenção, cuidado, escuta, relação.


Em véspera do dia dos namorados, nada mais presente à nossa volta do que imagens e anúncios alusivos ao amor. Contudo, amor e enamoramento revestem-se não só de imagens e palavras, mas sobretudo do sentir e do estar (dentro de nós, dentro do outro).
A procura de um outro, seja numa relação de amor romântico ou de um outro tipo, faz parte da natureza humana. Ainda antes do nascimento, na relação diádica entre mãe e bebé, a dependência face ao outro, é rampa de lançamento para o vínculo afetivo.
Amar é, situar-se num lugar um pouco estranho, de alguma vulnerabilidade até, permitindo-se estar “ao cuidado de alguém”, ou melhor dizendo em comunhão com alguém, criando-se um espaço de intimidade (psíquica).

Sabemos hoje que as relações amorosas adultas são o palco das experiências relacionais da infância (Rusczynski, 2006). No entanto, os atores nelas envolvidos (o casal romântico), tem a possibilidade de criar na relação algo de novo, que seja complementar para cada um. Deste modo, e como refere Freud (1910) “É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o objeto de primeira escolha amorosa. Porém, a líbido não permanece fixa neste primeiro objeto: posteriormente apenas o tomará como modelo, passando dele para outras pessoas estranhas (…).”. Falamos então de amor adulto quando se está perante uma relação madura, promotora de mudança (no self) e que simultaneamente responda às exigências atuais do amor adulto (Mesquita, 2010), onde se pode estabelecer uma relação complementar e não apenas para se sentir completo - estar com o outro para criar. No fundo somos todos seres desejantes de amor, como nos fala Coimbra de Matos (2004): “Quem procura o amor sempre o encontra, não fôramos todos seres disso desejantes. Desde que, à cabeça sejamos amadores; que o amor não se compra, nem se agradece, mas retribui-se. Quem ama sempre acabará por ser amado – desde que não desespere ou converta a falta e frustração em ódio e raiva.”

Importa então assinalar que o amor (amar alguém) inclui desejos e fantasias inconscientes associadas à infância, o que faz também deste sentimento algo único e idiossincrático, pois depende sempre do que cada pessoa “necessita”, e naturalmente procura no outro.
Amar é, confiar no outro, sendo que este sentir é aperfeiçoado quanto mais seguros na relação nos é permitido estar. É para isso novamente importante referir a noção de amor infantil. O lugar do amor do outro dentro de nós, ou seja, é essencial que ao longo do desenvolvimento do sujeito se crie uma constância (interna) do amor que outro (mãe, cuidador/a) tem em relação ao bebé/criança. Por outras palavras, numa fase inicial do nosso desenvolvimento é fundamental que aquele que cuida possa ter um comportamento previsível e dedicado, para que a segurança se instale. Progressivamente, este estado de segurança interna possibilita que o outro possa existir, mesmo quando ausente, o que leva a que, por exemplo, mãe e bebé se possam separar sem que este fique angustiado.

Nas relações amorosas adultas acontece algo semelhante. Numa fase inicial, a que podemos chamar de enamoramento/sedução, há que criar um espaço seguro, de intimidade, onde dois sujeitos (a díade) se conhecem e criam uma linguagem própria. Portanto a dança acontece, o movimento dos corpos (comunicação) é sintonizado, e o compasso e ritmo vão sendo pautados pela música que cada um traz para a relação.
Bom, retomando a premissa inicial, repito – o amor é delicado, e, fazendo minhas as palavras de Isabel Mesquita (2010), “Hoje digo que se eu escrever, um dia, um livro sobre o amor, terá 100 páginas, 99 das quais em branco e na última apenas escreverei: a grande vantagem do Amor é que pouco se sabe falar sobre ele e, como tal, andamos sempre dele à procura!”.






quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

E agora em Braga...






Alguém lembrou que faltava o relógio para a sala de atendimento e, alguém respondeu:
    - Não precisamos… temos os sinos da SÉ de BRAGA!

“Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma”


E aqui estamos nós, conquistando o Norte, tocando os sinos a rebate, não em toque de ataque avisando a chegada do inimigo mas, em toque de recolher, convidando-o/a a um recolhimento interno, num espaço de transformação, contenção e suporte, permitindo-se, tal como o sino, ser afinado por um especialista que o vai limando, retirando e trabalhando material até que ele se adeqúe ao seu propósito… afinal de contas, não basta derramar metal num molde para fazer um sino…

É com imenso orgulho e satisfação que lhe apresentamos o novo espaço d’ O Canto da Psicologia no norte do País, em BRAGA, Cidade dos Arcebispos, das mais antigas e bonitas de Portugal , reconhecida em 2017 como “Destino Europeu de Património” ….

À sua espera, tal como em todos os outros espaços, tem uma Equipa de Excelência ( já pode visitar o nosso site e conhecer a Equipa - www.canto-psicologia.com ) , um espaço de qualidade, muro com muro com a Sé de Braga no centro histórico, a um preço pensado e ao alcance de todos - 35€/sessão - ...
À distância de um clique, conte connosco... e já sabe, na dúvida, escolha-nos!!!