Esta semana a minha irmã ligou-me; numa voz entre emocionada e desiludida, contava-me num misto
de excitação e tristeza que, ao embeber
as borbulhas , resultantes de um surto de varicela do meu sobrinho mais velho ( faz 11 anos em Novembro) para acalmar a comichão,
confrontou-se com os primeiros sinais de puberdade ao perceber que já
havia, junto às virilhas, um pelo púbico a despontar com toda a força expectável
destes primeiros pêlos.
Entre gargalhadas e comoção serenámos a nossa surpresa; até parecia que o verbo crescer não fazia parta da nossa existência enquanto família; afinal de contas é o meu sobrinho e ele está a crescer.
Depois de desligar a chamada ocorreu-me uma leitura recente das obras “
Pedofilia e outras agressões sexuais “ de Anna C. Salter e “ A sexualidade
traída – abuso sexual infantil e pedofilia" de Francisco Allen Gomes e Tereza
Coelho e lembrei-me de um pequeno excerto que vou partilhar:
“ O que diria ela, por
exemplo, dos três irmãos que entrevistei na semana passada por terem sido
molestados por um adulto na infância? Um
deles lembrava-se distintamente da última vez que o adulto teria abusado dele;…
ao acariciar-lhe os órgãos genitais nus do rapaz quando reparou que lhe
começavam a despontar os primeiros pêlos púbicos. O adulto deteve-se
imediatamente.
- O que é isto? – perguntou-lhe ele
- São pêlos –
respondeu a criança – já aí estavam.
- Isso vejo eu –
retorquiu o adulto e levantou-se de imediato. Essa foi a última vez que ele
molestou a criança. Todavia, continuou a abusar dos seus irmãos mais novos.”
Pedofilia e outras
agressões sexuais – Anna C. Salter
E respirei de alívio! Dos pedófilos, está safo; dos
agressores sexuais, nem tanto! E repeti para mim mesma, o Mundo não é mau; O
mundo tem é coisas más!
Igualmente esta semana, deambulando pelo Facebook, encontrei um post tremendamente pertinente de
uma colega nossa que chamava a atenção, desta forma, para a nudez das crianças exposta em praias, piscinas e afins, alertando,
em modo de prevenção, para o cuidado a ter na exposição dos nossos filhos aos
olhos de quem não conhecemos ( deixemos os olhos de quem conhecemos para outra
altura) porque efectivamente não sabemos quem está por de trás de um olhar; permito-me partilhar:
“Nas praias e
piscinas continuamos a ver centenas de crianças nuas e semi-nuas. Questionados
sobre isto, os pais respondem estupefactos que “são apenas crianças, por amor
de Deus!” E olham-me como um bicho raro.
Pois são, são apenas
crianças, pré-púberes, que não têm ainda os caracteres sexuais secundários. Não
têm pelos nem maminhas. Têm um ar fofo, inocente e que inspira cuidados e
protecção.
Pois, mas não são estes os
sentimentos e motivações que inspiram em todas as pessoas. Quem se sente
sexualmente atraído por crianças encontra nesta descontracção parental a
oportunidade certa para satisfazer este desejo.
Sei que dito desta forma, nua e crua, choca. Mas é a realidade.
Existem pessoas, homens e mulheres, que se sentem sexualmente atraídos por
crianças e que adoram observar as crianças nuas e semi-nuas que brincam
descontraidamente na água.
Pensemos nisto na hora de vestir (ou despir) as crianças para
brincarem na água.
Drª Rute Agulhas
E voltei a respirar de alívio! Estes alertas, mesmo que
despertem variadíssimos tipos de reacções dos pais, são importantes; e repito, o mundo não
é mau; o mundo tem é coisas más!
Tal como seria de esperar as reacções e os comentários foram imensos,
uns a favor, outros em jeito de negação perante esta realidade e outros ainda
procurando um equilíbrio entre estes opostos.
Definitivamente, por aqui, estamos nestes últimos. Não há que
criar o pânico e a ideia, tal como alguém comentava, de que o inocente é que
tem que pagar pelo pecador impedindo assim as crianças de poderem ser livres e
comportarem-se como crianças mas, num mundo em que cada vez mais os comportamentos
sexuais desviantes emergem sem filtros e dos quais vamos igualmente tendo cada vez mais
conhecimento, o não prevenir, o não estar atendo, o negligenciar,
responsabiliza-nos de alguma maneira!
No livro “ A sexualidade traída – Abuso sexual infantil e
pedofilia - ” de Francisco Allen Gomes e Tereza Coelho, referem-se à pedofilia, entre
outras patologias, como algo do domínio das parafilias e parafilia como palavra científica que veio, "por decoro e espírito científico,
substituir a palavra perversão, desvio;" como referem, a “pedofilia é, portanto,
uma parafilia (perversão, desvio) em que o objecto de desejo são as crianças
impúberes."
Ora bem, num mundo de globalização em que as redes sociais e a Internet são os veículos mais que assumidos de propagação de toda a informação
que por lá colocamos e que os telemóveis de hoje vem apetrechados de
possibilidades infinitas sendo as mais comuns as câmaras que fotografam e
filmam com uma qualidade inquestionável podemos, perante cenários possíveis ,
colocar-nos num contexto inofensivo e simples de um dia de praia em que famílias
num registo de aparente normalidade, movimentam-se tranquilamente sem se
aperceberem de que alguém, perfumado e sem mácula de perversidade no seu
semblante, filme e fotografe os seus filhos que brincam nus e inocentemente em
poças de água à beira mar; alguém perfumado, sim, porque dos mal cheirosos,
todos nós nos afastamos e esses são os menos perigosos, exactamente pela reacção
que provocam em nós!
" Neste livro, o tema do pedocrime na Internet (...) foi referido, apenas de passagem. desde os anos oitenta que há noticias sobre a utilização da Internet para circulação e troca de imagens de crianças e de pornografia infantil".
Efectivamente não conseguimos nem devemos andar com os nossos
filhos dentro de uma bolha de alta protecção; nem deixar de lhes proporcionar experiências prazerosas só porque o perigo espreita; o nosso papel é deixá-los viver
estando atentos e vigilantes, suficientemente perto e suficientemente longe,
com regras de segurança básica muito presentes e sobretudo passando-lhes a mensagem, numa
linguagem adequada à idade, da a
importância do que é do domínio privado
e do que é do domínio público.
- Não entrarem em carros de estranhos;
- Não aceitar nada de estranhos;
- Não irem a lado nenhum, sob qualquer pretexto, com alguém que não conheçam;
- e se sentirem que estão a ser agarrados e puxados contra vontade ( em determinadas circunstâncias é um mal menor apesar de se educar para que não tenha este tipo de comportamento) gritar o mais que puder, morder e dar pontapés.
Continuo neste registo simples de que o mundo não é mau, tem é coisas más e que cabe a nós, enquanto pais, mostrar exactamente isso aos nossos filhos, ensinando-lhes igualmente formas de se defenderem; e enquanto não forem capazes de o fazerem sozinhos, sentirem que nos tem enquanto protectores sempre atentos e vigilantes mas nunca castradores da sua liberdade e potencialidade de vida...
Por isso, divirta-se, permita-lhes determinadas liberdades e usufrua do privilégio de ver o seu/sua filho/a crescer em segurança e num balanço saudável...
Drª. Ana de Ornelas
Directora Técnica
O Canto da Psicologia
Sem comentários:
Enviar um comentário