quinta-feira, 8 de abril de 2021

Desconfinar a mente e as emoções...

 



“Desconfinar” é a palavra do dia.

Há um ano que acompanhamos, mais ou menos atentamente, mas transversalmente, a evolução das tendências nos múltiplos diagramas, gráficos, números e índices que nos apresentam, pendurados das comunicações oficiais sobre as implicações na Vida. Tornámo-nos especialistas em epidemiologia. Como quebra gelo, não falamos do tempo, falamos da pandemia, deste céu que nos caiu em cima, e do desconhecido, “para o que estaremos ainda guardados” diz a expressão popular.

Para nos protegermos, fomos forçados a confinarmo-nos. Sentimo-lo como uma imposição externa mas também construímos nós próprios barreiras, alicerçadas no medo, na auto-proteção, no dever filial ou cívico. Defendemo-nos. Com os recursos que temos, pessoais, familiares, sociais ou materiais, procuramos reagir, cada um ao seu estilo.

Sentimo-nos, contudo, limitados, constrangidos. Nem sempre temos uma narrativa para este conflito entre querer viver, protegendo-se do contágio, e querer viver, sem estes limites criados para nos defender. Por vezes é um discurso mudo que sentimos e que se desenrola dentro de nós, uma sensação de incompletude ou mesmo de mal-estar. Uma falta de ânimo ou ansiedade miudinha. Por vezes externalizamos, discutimos com quem está à nossa volta, com o teclado do computador ou a máquina do café. E voltamos a defender-nos.

O cenário deste diálogo é o da pandemia COVID-19. No entanto, esta vivência de constrangimento, de possibilidades limitadas, é comum a muitos de nós, ainda que a localização e a intensidade da dor sejam únicas. 

O plano de desconfinamento vem-nos trazer esperança, vem-nos alargar o horizonte de possibilidades. A rua, as escolas, os parques, as esplanadas, as livrarias, os ginásios, os museus..as pessoas... Elas estão aí e somos livres para as usar. Bem a propósito, no abril que simbolicamente associamos à liberdade de um povo, o nosso.

Dizia Frederico de Brito “Julguei ser um sonho/Mas foi realidade /E às vezes suponho/ Que não foi verdade! / Mas se alguém disser / “Não há Liberdade!”/ Eu posso morrer /Mas não é verdade!”.

E, no entanto, a liberdade, essa palavra grande que nos enche a alma de expetativas, nem sempre é sentida. Na minha perspetiva, a psicoterapia é, também, um caminho de desconfinamento, da nossa mente, das nossas emoções. É um caminho especial, porque se faz a dois. Exploram-se as restrições hétero e auto impostas, umas conhecidas de longa data, outras nem tanto. Descobrem-se os gestos usados uma e outra vez, cujo uso se fez hábito já sem sentido ou benefício. Acima de tudo, descobrem-se novos caminhos, novas possibilidades, embaladas pela confiança e pelo sentido de liberdade para as percorrer. Somos inspirados, paciente e terapeuta.

Fazem parte do nosso imaginário popular várias letras do António Variações. Recordo esta:

 Quero é viver/Amanhã, espero sempre o amanhã/ E acredito que será, mais um prazer/A Vida, é sempre uma curiosidade, que me desperta com a idade, interessa-me o que está p’ra vir/E a vida, em mim é sempre uma certeza/que nasce da minha riqueza, do meu prazer em descobrir/Encontrar, renovar, vou fugir ao repetir” lindamente interpretada pelos Humanos .

Porque o potencial para sermos mais livres está em todos nós. Por vezes precisamos apenas de companhia no caminho.


Drª Ludmila Carapinha - Lisboa

O Canto da Psicologia



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