quinta-feira, 7 de março de 2019

Completar ou complementar?






Na cultura popular, diz-se com frequência que, para se ser feliz, há que encontrar a metade da nossa laranja. Que cada panela tem a sua tampa. À primeira vista, isto poderia significar que, a sós, somos “apenas” metade de algo. Será que isto é mesmo assim, ou será um pouco mais complexo? De que material é feita esta teia que nos enlaça?

Não é novidade alguma que as relações perfeitas e livres de mácula não existem. Sejam elas breves ou duradouras, quase todas as relações serão feitas de momentos de encontro, plenitude e prazer, assim como de desentendimentos, desencontros, lágrimas e mágoa. Talvez as pessoas possam ser adeptas de clubes rivais, ter amigos diferentes, interesses sem qualquer semelhança, mas acreditamos que seria por ter o coração partido que Rui Veloso cantava “não se ama alguém que não ouve a mesma canção”. Porque não se há de amar quem é diferente de nós? Estaremos destinados a ficar com alguém com quem simplesmente “encaixemos”?

Na realidade, podemos olhar para uma relação como algo que tem mais a oferecer do que a completude. Completar é colmatar uma falha, é encerrar em si mesmo, é não almejar a algo mais, é ficar “só” satisfeito; não será por acaso que na depressão, por vezes, se parece estar num estado constante de fome afetiva, que custa a satisfazer porque, no fundo, é manifestação de uma carência que já vem de trás. Por outro lado, o espaço de sonho e projeto, como tão bem o coloca Coimbra de Matos, encontra-se na relação de complementaridade. Aqui sim, assiste-se ao crescimento significativo e à expansão do amor, do conhecimento. O que haverá para além de mim? Do que já sei, do que já tenho, do que já conheço? Quando estão reunidas as condições necessárias para tal, este movimento de afastamento do que é tido como certo e sabido não se torna assustador nem angustiante, mas sim profundamente desejado e fascinante.

Este olhar curioso e sedento pelo incógnito, que, paralelamente, nos torna disponíveis para um outro-distinto com o qual explorar novos horizontes, só poderá florescer de um amor-semente, tão antigo quanto a nossa própria existência. Plantado num colo contentor e regado por um olhar potenciador de novos voos, este amor-semente permite abraçar o novo, o diferente, o desafio, e com isso crescer e, mais importante ainda, criar. A criação é sempre obra da relação, do encontro dos afetos que permitem a multiplicação e a extensão dos fios que nos conectam uns aos outros. Recuperando a questão inicial, esta teia que nos enlaça é então, só e apenas, amor. Amor genuíno, que oferece em simultâneo raízes e asas, para que saibamos o que temos mas, ainda assim, também arrisquemos olhar para lá dessas certezas, e, com isso, sair enriquecidos.

Drª Carolina Franco



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