quarta-feira, 19 de abril de 2017

Então você é que é o filho do doutor?...






( Ida à Inspeção com o velho Plácido à espera no café e pronto a lixar um general, com o Tejo lá em baixo a ver tudo)

Até o rio parecia não me conhecer e eu só queria voltar a ter asma. Num rufo, senti-me apertado por uma infausta saudade de noites de pieira e vapores que me livrassem. Tropa não rimava com os meus horizontes, onde já moravam jornais, futebol, guitarras, sonhos, mulheres e tudo. Fui dos últimos a entrar antes de fecharem portas ao quartel. Ainda me passou pela marmita deixar-me entalar e assim fugir a um verão canicular entre magalas e a comer pastéis de bacalhau feitos nos sovacos. A encolher na distância, vi o velho Plácido, que me acompanhava e já fora promovido a avô (só há patentes entre amigos), descer a Calçada da Ajuda e dizer-me sem olhar para trás ao apontar os cavalos para o café: “Se der merda, estou aqui no Milhage.”

Entrei. Levava uma papelada em invólucro selado que o meu pai me passara a bufar por, nesses dias, cá o safardana esquecer-se de faculdades. Na parada, reconheci o Augusto e mais uma passarada lá do meu lado do vale. Estacionei entre a maralha e um gajo vestido de oliva avisava que agora pertencíamos ao Exército. Eu já não era o Filipe Dias. Muito menos o filho do doutor - o melhor que Filipe Dias poderia aspirar ser. Eu era abaixo de cão. Pior: era abaixo de Filipe Dias. Pensei um “foda-se” sem o verbalizar e tirei o brinco como quem larga um hábito mau.

“Quem é o 151???”, ladrou um gajo cuja graduação jamais decifraria enquanto me testavam a visão em cinco segundos. Redargui que era eu, esperançoso, e encaminharam-me para um gabinete. No destino, abraça-me alguém folgazão, todo gris da farda até ao gasganete e de chapas refulgentes. Indagou de chapa e em tom cúmplice: “Então você é que é o filho do doutor?...” Senti-me perpassado pelo frescor de uma brisa, cortada logo de seguida pelo amigo repentino que afinal só ia a meio: “...a tropa agora não custa nada. É em menos de um cartucho. Abraço ao pai. Vá lá...”

Fui reconduzido para o meio do granel. Ainda levava os papéis-mistério. Dois exames depois e outra vez o brado: “Esse 151?” (começava a ser cliente). Respondi que ali estava com marcial obediência e julgo-me atalhado para o real livramento quando outro general, coronel, marechal ou marechel ou lá o que era essa porra, me recebe. Aquele tinha outro porte. Majestático, anafado e com um chanfalho à cintura. “Olhe lá, o doutor está porreiro?”, despejou-me à entrada para tudo me saber à sofreguidão de um “é agora”. “Qualquer coisa, fale comigo. Isto é só seis meses, pá. Boa sorte. Diga lá ao pai que se deixe de sportinguices que isso só traz tristezas.” E o cabrão ainda gargalhou a recolocar-me na Inspeção com esta para salgar a ferida. À terceira para o meio da canzoada. Desanimei no intervalo para almoço. Dei um pulo ao Milhage e lá está o avô Plácido. Lia um livro encarquilhado do Nuno Bragança e prometeu-me que, se ficasse apto, fazíamos um penálti em casa do general Pezarat Correia, que lhe devia favores em Moçambique e mais: se não jogasse à bola na nossa equipa, o meu velho punha cá fora toda a podridão ultramarina que lhe conhecia. Cheirou-me a trote, mas agradeci a amizade.
Tentei comer. Não comi.

Para a segunda parte, estava entre a cáfila com medo que me apertassem o tomatal e me obrigassem a tossir como tinha visto num filme, quando fui solicitado por um malandrim de bata. Fez-me trejeitos de segredos quase sem falar e à laia de transa ilegal. Sacou-me a papelada. Senti-me nada e sem nada.
Desenhava arabescos em exames escritos psico-qualquer-merda a imaginar-me a acordar sempre cedo (tortura medieval!). Nisto, houve abordagem nova do mangas que só ouvi dizer “151”. Fomos à sorrelfa. Sala vazia. Outra bata com uma pessoa inexpressiva lá dentro virou logo a cara ao entregar-me uma folha de soltura. Rosnou de saída: “Pira-te. Os atestados que trazias até mandavam o Rambo para o Convento das Carmelitas Descalças...”
Eram 16h e qualquer coisa e eu já não ia à tropa. Soltei o grito, fiz um pirete do outro lado da estrada ao quartel. Desci Lisboa com o Plácido, ele afivelou aquele seu brilhante sorriso sem dentes face ao desfecho e nunca soubemos que doenças me inventaram. Ser inapto era uma experiência gloriosa e até o Pezarat Correia podia viver pelo menos mais um dia. Bebemos e fumámos uma bela conversa em Belém. Fiz o favor de não ouvir todos os conselhos do meu avô e jurei que a partir dali ia ser tudo o que devia. Cometi a fineza de não cumprir.

Anos antes, andava por cá há sete, operaram-me aos adenóides e foi bom porque não morri. Vinha de carro no regaço da tia Maria Luísa. Como ainda punha o cenário de me apagar, levantei a cabeça e olhei pela janela à procura de alguém mais que fizesse tudo melhor; que tirasse as dores; eu queria que me acontecesse muito mundo. Vi o Tejo. Pareceu-me azul e vívido. Gostei dele porque onde Tolan estava de barriga para cima a estragar o quadro era lá mais atrás. As dores passaram devagarinho, como por visão aquática de magia. Senti no rio mais um amigo e fui crescer a salvo para casa.

Ainda hoje desconfio que aquela bravata da Inspeção foi obra do meu pai, do meu avô, daquela canalha militar e até do Tejo. Deviam estar todos a brincar comigo.

Filipe Alexandre Dias
Jornalista





terça-feira, 18 de abril de 2017

Uma visão para o futuro...






O excesso de tempo à frente do computador, telemóvel ou tablet tem conduzido a uma modificação do comportamento motor no ser humano, nomeadamente ao nível da coluna cervical e torácica.
Vários estudos, indicam que pessoas que passam muito tempo à frente de um pequeno ecrã têm tendência para manter a cabeça numa posição anteriorizada, com os ombros rodados internamente e uma postura fechada sobre si próprio (posição cifótica). Estas posições irão criar a médio/longo prazo o aumento do stress na região cervical, tensão muscular excessiva no trapézio, dores de cabeça, abdução das omoplatas (responsáveis por estabilizarem movimentos do ombro), mudança no centro de gravidade, alteração no padrão respiratório (falta de controlo na respiração em esforço), compensações musculares e alterações ao nível da coluna em zonas adjacentes às lesadas, por exemplo da coluna lombar.


Se passa muito tempo à frente de um ecrã, certifique-se que mantém uma posição neutra da coluna cervical, evitando estar debruçado a olhar para baixo “forward head posture”. No caso de treinar num ginásio, procure que o seu professor ou personal trainer o ajude a melhorar a mobilidade da cintura escapular e coluna torácica através de exercícios específicos.

As cifoses são mais sólidas, porém menos flexíveis; já as lordoses são mais flexíveis, porém mais frágeis” (Bienfait, 1989)



Hugo Silva 
Instagram: hugo_silva_coach
Linkedin: http://linkedin.com/in/hugo-silva-1b8295132
-Licenciatura Educação Física/Especialização Treino Personalizado
-Pós-Graduação em Marketing do Fitness 
-Pós-Graduando em Strength and Conditioning
-Director Técnico ginásio Lisboa Racket Centre 
-Director Técnico ginásio Muscle Factory



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Pais são pais porque filhos são filhos...






  O que fizeste hoje? (…) Brincaste e…?? Mais nada? (…) Porque é que nunca contas à mãe o que fazes na escola?”
Quantas vezes estas perguntas ganham forma e espaço no carro na hora de partir rumo a casa? Provavelmente tantas vezes quantas as que compõem o momento de ir buscar à escola . Como pais queremos saber, controlar, filtrar e no fundo centrar em nós o poder de protecção máximo…escrutinar tudo o que escapa ao nosso olhar de falcão, radar timorato de suricata e garras de felino escondido entre ervas altas na planície.

Pais são pais, como tal têm de saber tudo dos filhos!
Têm mesmo? O que significa efectivamente isso? O que estará por detrás desse querer saber?

Lá está: Pais são Pais! e como tal os pais têm o melhor lugar, papel, função e privilegio no mundo e vida dos seus filhos. Porque filhos são filhos! E não deverá existir vinculo mais fiel, genuíno e exclusivo do que este, com medidas, formas e descrições únicas e incapazes de tabelar e quantificar. Este é com certeza um conceito de unidade\união dividida em dois que está para lá daquilo que as matemáticas, físicas e químicas poderão explicar. Porém uma relação de vinculação deverá encontrar-se num ponto mais distante de uma relação de poder e controlo, mas num ponto equivalente de uma relação de reciprocidade e equilíbrio.

Uma relação que nasce na “ocupação” de um espaço interior durante 9 meses, que floresce e nutre num espaço exterior partilhado e num outro interior individual e intimo por muito e muito mais tempo (embora sempre pouco). É este o único e verdadeiro poder inerente a uma relação de vinculação, um dentro que depois se vive fora mas também e ainda dentro. Confuso? É sempre mais fácil e maravilhoso de sentir do que explicar.
Porém, quanto mais mágica e especial, mais receios, por vezes medos, ou mesmo angústias tenderão a surgir sempre que uma nova relação se estabelece e tantas vezes se apresenta como necessária e fundamental
.
Mas quem melhor que eu, pai, para cuidar? Para saber do meu filho e ajudar??
A resposta é simples: Ninguém! Ninguém é melhor que uma mãe ou pai para ser exactamente mãe ou pai (entenda-se mãe e pai na máxima ascensão da palavra e titulo de quem cuida, educa, ama, sofre e erra; e não qualquer uma pretensão a tal)! Pais são pais! Logo pais não são melhores amigos, não são professores, pediatras ou psicólogos. São pais! Que mais se poderia desejar ser?

Cada relação, cada papel deverá conhecer os seus limites como um corpo não visível e concreto mas implícito, lapidado, consolidado e polido à medida do crescimento e desenvolvimento interno de cada sujeito.
O mesmo sucede nas relações e processos psicoterapêuticos. Para lá dos limites inerentes ao espaço fisico em que cada sujeito e terapeuta se acomodam e aninham, existem as paredes sólidas mas invisíveis que dão corpo à relação e processo terapêutico. Se por um lado no caso do acompanhamento de adultos este parece um conceito um pouco mais tácito, no caso do processo terapêutico com crianças torna-se mais complexo e carece de um forte realização e explanação sobretudo para com os progenitores.

“ Nunca sei o que é que ele lhe conta? Ele nunca me diz o que fala aqui!”

Compreender que aquele é o espaço da criança, das suas coisas e de tudo aquilo que esta pretender colocar nele, nem sempre è fácil para os pais. Porém, não existe psicoterapia se não existir confidencialidade, protecção e sigilo sobre tudo o que acontece da porta para dentro. O Psicólogo é um agente facilitador e promotor do contacto da criança com as suas questões internas, e sem uma relação de confiança e empatia esta dinâmica fica seriamente comprometida.
Pais são pais e sem a colaboração e empenho dos mesmos qualquer processo terapêutico tenderá a ser incompleto, um corpo sem um membro que coloque em causa uma mobilidade harmoniosa e saudável. E entramos aqui num registo nem sempre fácil de conquistar e manter, os pais deverão ser aliados e parceiros do processo terapêutico, estando disponíveis, partilhando informações, devolvendo preocupações, promovendo mudanças e respeitando a relação criança\terapeuta. No mesmo sentido, os pais deverão sentir-se ouvidos e compreendidos nas suas crenças e princípios, contidos nas suas angustias e preocupações, bem como, esclarecidos nas suas dúvidas e ilações. Como tal, os pais deverão formar uma aliança terapêutica com  o clínico, que fomentará na criança uma sensação de contenção e importância que promoverá um processo psicoterapêutico mais sólido e eficaz.
Pais são pais! Como tal, não têm de saber tudo sobre os filhos, da mesma forma que estes nunca saberão tudo sobre os pais. Mais importante que este “saber tudo”, alimentado pelas inseguranças e receio de perda de valor, os pais deverão conhecer os seus filhos e estes, numa reciprocidade genuína e única, deverão conhecer os seus pais. Os nossos filhos têm o direito a saber como nos sentimos perante diferentes situações, a revelar curiosidade e questionar sobre o nosso dia, a conhecer e prever as nossas reacções…só assim terão mais facilidade em contactar e partilhar as suas próprias emoções, pensamentos, medos e angústias.

Neste sentido, como pais estamos sempre a tempo de enriquecer as nossas perguntas e respostas, valorizando cada segundo das interacções com os nossos filhos.
Assim…
Filho gostava de te contar uma coisa importante que me aconteceu hoje no trabalho.(…) O que achas?(…) Achas que podia ter feito as coisas de forma diferente?(…)

Ontem quando não quiseste falar comigo fiquei a sentir-me um bocadinho triste e a achar que já não confiavas em mim, mas respeito que nem sempre te apeteça falar. Mas quando quiseres vou estar disponível.”



Drª Joana Cloetens
O Canto da Psicologia



terça-feira, 11 de abril de 2017

Rabanete vermelho, branco ou preto?




Conhece o rabanete?
E se lhe disser que há 3 tipos diferentes?



Rabanete – o vulgar rabanete que se encontra nos supermercados.


Rabanete chinês, japonês ou daikon -  de forma alongada, cilíndrica e branco. 



Rabanete preto ou de inverno – menos conhecido e comum. A parte branca é mais digestiva.




O rabanete preto é o que se destaca mais pelas suas propriedades especiais.
Estimula a produção de sais biliares pela vesícula biliar, graças ao seu teor em enxofre. Para além o seu teor em glucosinolatos, estimula a função hepática melhorando a destoxificação hepática sendo assim um hepatoprotector contra lesões.
Entre os nutrientes mais ricos encontramos vitamina C, ácido fólico e cálcio.


Experimente adicionar rabanetes nas suas saladas!


úlio de Castro Soares
Nutricionista
Tlm.: 962524966



sexta-feira, 7 de abril de 2017

Guia do utente da Psicoterapia…kind of







Eu no Canto

Aqui ficam as minhas apresentações.

…do estereotipo social:Sou mulher.

Working mum (sempre aquela coisa que em inglês soa melhor…).
Com namorado vai para 6 anos.
Um filho pré-adolescente.
Uma filha dele (não minha) adolescente.
Uma família equilibradamente desequilibrada e estável nas suas instabilidades.

…das emoções:

Com uma amiga inseparável desde quase o berço…a ansiedade.
De imensas paixões e ódios amorosos.
Repleta de contradições.
Certa das minhas incertezas.
Segura das minhas inseguranças.
Partilhas neste espaço em 3 tempos verbais, o passado que teima em dar comigo em doida, o presente, e o futuro. 
Vou falar de mim, sobre mim e os meus…, mas também dos outros. E claro, aqui e ali desta experiência que tem sido a Psicoterapia na qual comecei há mais ou menos 4 anos.



Guia do utente da Psicoterapia…kind of

Quando decidi fazer Psicoterapia, estava num momento difícil na minha vida. Não era o primeiro, também não foi o ultimo, mas naquela altura esta ultima parte eu ainda não sabia.
Achava que pior do que aquele momento era impossível. Não sabia, como agora que tinha uma capacidade de suportar o insuportável maior do que imaginava.
Mas sobre isto falo noutro dia. 
Hoje partilho convosco o meu Guia do Utente para a Psicoterapia. E porquê? Porque efetivamente considero ser da máxima importância para quem se iniciou nestas andanças recentemente, e para quem anda a pensar nisso e não sabe muito bem ao que vai. Desta forma, encontram aqui “aquela” dica, ou no caso, um conjunto delas para conseguirem tirar o melhor partido da Psicoterapia.
Sem qualquer ordem ou critério aqui fica:

1. "Não negue à partida uma ciência que desconhece”. 
Eu sei. É um chavão. Foleirito até, porém simboliza bem isto da Psicoterapia. Já conhecia a Psiquiatria, a Psicologia, (não, não sou maluquinha…acho) até que esbarrei na Psicoterapia. No meu caso, foi o que melhor se adequou. Mas isto para dizer que cada uma destas que eu referi, tem a sua forma de “estar”, e a Psicoterapia, apesar de menos conhecida das pessoas tem um encanto que só ela. Mas é tímida e por isso se vamos à procura de resultados imediatos, nesta porta não se encontrada nada. 

2. Insiste e não desiste.
Há momentos em que queremos desistir, e então no caminho para mais uma sessão, assim meio emburrados e contrariados, começamos a arranjar mil e um argumentos para não irmos:
“-Acho que vou desistir! Já la ando há não sei quanto tempo (5 sessões…ou 5 meses até vá) …’tá bom!”
Só que não! A minha experiência diz que para além de seguirmos a regra 1, quando se começa a pensar em não ir, é porque estamos a fazer progressos. Evitamos ir porque sabemos que vamos voltar àquele assunto que até não queremos nada falar. Mas é mesmo assim. Insistir e não desistir.

3. Para maluco, maluco e meio.
Não é para tirar de letra… não estou a chamar o terapeuta de maluco! Estou sim a dizer que ali naquele espaço que é nosso, naquela hora, podemos e devemos dizer tudo aquilo que só pensamos, que até aos nossos pensamentos envergonha. Aquela pessoa que ali está à nossa frente, está preparada para ouvir de tudo. Para falarmos mal da sogra, da mãe, dos filhos, da ex dele, do atrasado mental do ex…enfim.  É mandar tudo cá para fora. E não tenham receio, que o que ficou por “falar” nesse dia, mais tarde ou mais cedo volta a lume.

4. Gigas e Gigas de memória com Terabites de perspicácia
No meu caso, em 60 minutos de sessão sou capaz de debitar 10 assuntos diferentes, sou uma autentica malabarista de “chatices” e “picamiolices”, pelo meio vou falando de assuntos com maior ou menor relevância para a minha existência.
É aqui que entra a memória e a perspicácia da Psi (Psicoterapeuta, que no meu caso será sempre feminino, mas nada contra às versões masculinas)! Não só consegue lembrar-se 40.000 sessões depois de assunto que eu mandei cá para fora, como percebe perfeitamente que “aquele” assunto no qual eu me retive apenas 5 minutos a falar, é provavelmente “O” assunto do dia, ou “O” episódio da nossa vida e assim, numa sessão quando menos esperamos lá vamos nós falar do que incomoda, do que mói.


5.Let it Go
…ou deixa-te ir. Entra na onda da verborreia e diz o que pensas. Sem medos. Ali ninguém nos ouve. Podemos falar da mãe, do pai, dos irmãos e de como a nossa família é a causadora de todos os nossos problemas presentes que vieram o passado. Falar da melhor amiga que às vezes não é assim tão amiga. Do chefe que é uma besta. Do bullying profissional. Mas também das coisas boas porque elas também existem e a Psi ajuda a vê-las e encontrar mesmo quando achamos que nem sequer existem.

Para acabar deixo aqui um glossário de linguagem Psi, ou “Psicolário”.
As Psi’s gostam de usar expressões e metáforas que com o tempo vamos percebendo o que significam, e que às tantas damos por nós a usar também.

Acredito que haja muito mais, mas aqui ficam as que eu já consegui descobrir:

- “Fantasia” –São exatamente aquelas coisas que pensamos, as que temos medo de pensar e os mil e um cenários, que no meu caso, gosto de colocar no exercício (completamente impossível) de controlar o futuro.
- “Largar a bomba” – aquele momento em que nós falamos de um assunto sensível, ou da treta, ou sobre pedras pedreira no sapato e airosamente achamos que a Psi não percebeu que aquilo que eu disse sobre a minha irmã, aparentemente inocente, afinal temos ali trabalho para muitas sessões.
- “Devolver” – não, não andamos a emprestar nada uma à outra. “Devolver” ou “devolução” é quando a Psi tenta por ordem na barraca e ajudar-nos a por as ideias no sitio e diz-nos o que nós dissemos no meio de choro e alguma histeria, mas de forma limpinha e “organizadora” (já lá vamos a esta).
- “Pensar com carinho” = Largar bomba + Devolver, ou seja é basicamente o trabalho para casa. É irmos pensar no que dissemos, mas já com as ideias arrumadas.
-"Organizador "– Termos as ideias arrumadas, pensarmos com carinho no que dissemos ou fizemos, naquilo que a Psi “devolveu” e organizarmos a nossa cabeça e forma de estar.


Resumindo…Não, não é fácil. Há alturas que não apetece. Que odiamos a Psi. Que achamos que o investimento financeiro não compensa. Que a cabeça pesa mais do que o nosso peso corporal. 
Felizmente são momentos breves, estes os difíceis, que são compensados pelos bons e por uma sensação de alivio e de vontade de continuar este processo.

Petra






quinta-feira, 6 de abril de 2017

Depressão, vamos falar?







“Depressão. Vamos falar!” é o tema escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para as comemorações do Dia Mundial da Saúde 2017, assinalado anualmente no dia 7 de abril. Colocado no epicentro das preocupações do debate internacional para o corrente ano, não poderíamos ficar indiferentes e deixar de relembrar uma data que é da maior importância, mais ainda quando a esta estão associados espectros da saúde que tanto nos tocam. 

Efetivamente, é com algum agrado que vemos assinalado o Dia Mundial da Saúde em volta de um tema tão central como é a Depressão, sobretudo quando verificamos que ainda há um longo caminho a percorrer até que esta questão possa ser tratada condignamente. 

Em Portugal, temos assistido a um aumento considerável do consumo de antidepressivos nos últimos anos, o qual é acompanhado por um aumento da taxa de suicídios. Estes são os dados do mais recente relatório da Direção-Geral da Saúde, o qual revela, ainda, que Portugal é um dos países com maior prevalência de doença mental, sendo também um dos países onde a depressão assume maior gravidade e em que o intervalo de tempo entre o aparecimento dos sintomas e o início do tratamento é mais elevado. No que concerne à saúde mental, temos uma legislação caduca e pouco adaptada à realidade do nosso país, embora esse não seja, talvez, o maior dos problemas: a estigmatização que é feita face aos sintomas psicopatológicos e à doença mental está, ainda, profundamente enraizada na nossa sociedade, tradicionalmente conservadora. É neste cenário que Portugal se encontra em relação à saúde mental, ainda distante daquilo que mundialmente se preconiza. 

Será necessária, por isso, uma profunda transformação para que o sofrimento psíquico passa a ser falado “olhos nos olhos” – de resto, como indica o título dado ao debate deste ano -, a qual só poderá acontecer através do desenvolvimento de toda uma rede (quase inexistente) de cuidados de saúde primários e de políticas e programas que atuem numa lógica preventiva. 

A Depressão é, de acordo com alguns autores, a doença do século XXI. Se, em tempos idos, a histeria era o quadro clínico de eleição, hoje, os quadros depressivos ocupam lugar enquanto sintoma de uma espécie de mal-estar contemporâneo: são a expressão da fragilidade humana, numa sociedade frenética, híper-exigente, individualista, do parecer em vez do ser, da ditadura do consumo, do mérito quantitativo. As dificuldades inerentes à condição humana, essas, vão ficando esquecidas, em detrimento de uma certa superficialidade dos afectos, das relações, da forma como nos ligamos, num mundo onde impera o imediatismo. 

Onde se enquadra, então, o depressivo, nesta linha de trânsito? O depressivo é, em si mesmo, o sintoma deste mal-estar, navegando na contra-corrente: tem uma tonalidade triste, produz pouco, não se entusiasma, faz-se acompanhar de uma sensação de vazio, de desesperança, de culpa e de pensamentos punitivos, sentindo-se desenraizado, deslocado, pouco integrado. 
O número de depressivos e o seu crescendo a uma escala mundial serão a expressão deste empobrecimento das sociedades atuais, os quais só poderão ser pensados e compreendidos, através de debates que deem voz à depressão e à saúde mental. Esperamos que aqui e um pouco por todo o lado o tema seja relançado. Afinal, “Depressão. Vamos falar!”




Dr.ª Joana Alves Ferreira
O Canto da Psicologia




quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sousa e o Perna de Pau...









Duarte Sousa não soa nem ressoa a nome de negro. No caso, até nem era. Foi maneira de lhe colonizarem o guineense Bite Babi Sadjá mais qualquer coisa que agora não me recordo. Tenho a certeza que o nome original acabava em Mangonga. O Sousa é um preto bestial e é da família. Da etnia papel ou manjaco. Não interessa. Interessava é que não era bijagó, uma maralha canibal que nunca dizia não a chicha da humana. Voltemos à civilização e ao nosso Sousa.

O Sousa mentia sempre a falar da idade e isso era porreiro. Tornava-o ainda mais misterioso e retinto na sua negritude, a mesma que dava exotismo ao bolor das visitas que de quando em quando nos saíam na rifa lá em casa. Acho que ele nem percebia que mentia nos anos que levava disto e nós já nem nos importávamos em saber a verdade. A verdade pode aparecer vestida de uma inconveniência terrível e mais vale uma mentirinha em pelota para animar o pedacinho. Com o Sousa, a verdade é uma coisa com a qual se tomam liberdades no maior descaso e está muito bem assim.

O Sousa deu por cá com os ossos para estudar Medicina depois da farruscada do Ultramar. Tinha estado do lado português durante a guerra e fez-se ao piso por Lisboa para não aparecer pendurado ainda a espernear num candeeiro em Bissau. (Em Bissau acho que já não sobram candeeiros...). Conheceu o meu velhote lá na África - que foi lusa - e intercalava os estudos num centro na Faculdade de Motricidade Humana - que foi ISEF e INEF - a forçar a minha mãe a esmerar-se na cozinha. A constituição esquálida do Sousa enganava porque quando o gajo desatava a dar ao serrote era um meter para dentro medonho no decurso do qual era avisado afastar as mãos da mesa. Para mim e para a pirralha que me acusava de ser seu irmão, as visitas do Sousa eram um alegrete. Montávamo-nos no gajo, coçávamos-lhe a carapinha, apertávamos-lhe o nariz abatatado e pasmávamo-nos com as suas palmas da mão rosáceas. Ele ria-se na maior placidez e era de uma ternura desarmante. Lembro-me de o topar absorto a ver o 1,2,3 na caixa colorida e a levantar a gambiarra esquerda para a segurar pelo joelho. Era a sua pose mais senhoril. O Sousa sabia de números, ainda me deu umas inúteis explicações aritméticas e ensinou-me a dizer como te chamas em russo, o que me foi tão útil quanto fixar axiomas de psicologia social. Achamos que o artista nunca acabou o curso e andou a exercer de bata na maior desfaçatez até lhe descobrirem a careca, mas essas são as mentiras que me enternecem. O meu pai também se recorda de lhe voltar a perguntar a idade e, ao fazer contas a retroceder perante a resposta, chegar à conclusão que o sr. Mangonga afinal tinha sido sargento com 14 anos... Quando se pergunta algo ao Sousa sobre a sua biografia em constante atualização, ele fala de forma envolvente, vozinha melíflua... e ficamos sem perceber nada.

Mas o Sousa já me foi buscar aos infernos e isso não se esquece. Num reação violenta à penicilina, foi ele que me deu o antídoto. Ainda me ajudou a driblar a asma e outras bronquites. Quando o sentia subir as escadas até ao quarto cá do brotas como quem passa pelo restolho, sabia que o amanhã estava garantido. Também foi o nosso escurinho quem me curou a primeira ressaca, que me deixou a caldinhos durante uma semana.

Lá por casa há mais que um cão. O que aqui vem à conversa também começou por ter um nome e depois outro. Para mim, é o Pirata. Um rafeirola catita, mas que sai sempre desiludido comigo da sessão de festas. Pressente que eu tenho outros planos logo a seguir e acha tudo aquilo um fingimento de merda da minha parte. Haveremos de conversar sobre isso. Acontece que agora o nosso Pirata anda mal do pernil traseiro e tem lesão de jogador de futebol: rotura de ligamentos. O nosso felpudo perna de pau está fora do jogo de domingo, tem a época em risco, mas claro que lhe vamos renovar contrato porque sem ele não somos a mesma equipa. Ele gosta que o Sousa apareça, tome-se nota.
Uma vez, um senhor, perdão, uma besta sem par, disse-me isto: “Primeiro branco, depois cão e depois preto!” Espero que quem mo disse tenha tido um AVC testicular.

Ligaram-me há pouco a dizer que passaram-se momentos porreiros lá da casa onde isto começou para mim e andei décadas a mamar na teta da vaca. Parece que o Sousa - que agora andava por Londres a fazer algo que nunca perceberemos -, apareceu de supetão à porta com um saco de plástico roto e uns livros na mão, meteu meio quilo de bacalhau no bucho e fez serão a cuidar em mimices do Pirata, que começou a morsegar-lhe a cara na brincadeira e até ficou melhor do amortecedor.

Não apareci para andar a aqui a escrever calamidades.
Primeiro o Sousa, o Perna de Pau e todos vocês, que fazem o que está bem e fazer bem estar com os amigos.
Em solidão de letras tortas depois venho eu... muito depois.

Filipe Alexandre Dias
Jornalista