É nas relações que estabelecemos ainda
enquanto crianças que se encontra a origem do que sentimos, daquilo em que
acreditamos e da forma como nos relacionamos com os nossos outros
significativos. Apesar de não termos normalmente memórias dos nossos primeiros
anos de vida, é nesta fase que as sementes de quem somos são lançadas à terra. Não
se pretende com isto reduzir a essência do ser humano a este período inicial de
vida; naturalmente que as nossas experiências ao longo da vida também nos
moldam. No entanto, há que olhar com atenção para esta fase tão especial, feita
de primeiros encontros e desencontros.
Durante os primeiros anos de vida, é através
da interação com as figuras cuidadoras que se torna possível a organização
interna das crianças. Estas figuras são essenciais na maturação pulsional e
estruturação do Eu que se dá na primeira infância, havendo uma transformação das
experiências partilhadas em esquemas cognitivo-afetivos. Estes irão estruturar
a forma como as crianças pensam e se sentem em relação a elas mesmas e às
outras pessoas, o que lhes permite olhar para o mundo de uma forma simplificada,
à luz destas experiências precoces.
Que características devem pautar estas figuras
para que haja um desenvolvimento harmonioso na criança? Para que o mundo seja
olhado com lentes realistas mas também essencialmente positivas? Arriscamos
dizer que não sabemos. Não existem fórmulas certas, conselhos infalíveis e
receitas mágicas. No entanto, apontamos duas características que nos parecem
absolutamente essenciais: o afeto e a autonomia.
Sobre o afeto muito haveria por dizer, mas
optamos por não nos alongar. Preferimos deixar a sua mente aberta às mais
variadas manifestações de amor que possam existir e que façam parte do seu quotidiano:
um beijo e um abraço ao acordar, um olhar cúmplice num momento de travessura,
uma “colher-avião” à hora de jantar, ou uma história antes de adormecer. É a
partilha, a cumplicidade, o desfrutar dos momentos que se passam em família.
Na autonomia, há que respeitar as várias fases
em que as crianças (e também as famílias, diríamos nós) se encontram. No
começar a andar e afastar da mão sempre pronta a amparar, e que de repente
começa a ter de sacudir terra dos joelhos, limpar lágrimas da face e, mesmo
assim, encorajar a seguir em frente. Na roupa que não combina e que foi
escolhida por pequenas mãos, mas que, desde que ajustada à estação do ano,
talvez possa ser simplesmente vista como muito criativa. No assistir a um tomar
de decisões com as quais não se concorde mas que, apesar de tudo, poderão
ensinar muito sobre o que são consequências. No acreditar em coisas diferentes,
num pensamento crítico e promotor de discussões saudáveis, com a conquista de
uma maior capacidade de argumentação.
Porque as sementes lançadas à terra se tornam,
também elas, em árvores independentes, querem-se raízes fortes e resistentes às
intempéries da vida.
Drª Carolina Franco
O Canto da Psicologia
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