quinta-feira, 13 de julho de 2017

Luto: Uma Equação de amor...





Perder alguém que amamos profundamente é a experiência mais devastadora vivenciada por cada um de nós. Todo o vínculo significativo estabelecido tem uma forte influência na definição identitária do ser humano. Somos filhos da Amélia e do Eusébio, irmãos da Carminho e do Manuel, netos da Maria e do António, sobrinhos da Júlia e do Francisco, Pais (com quem nos emparelhámos na dança dos dias) daqueles pelos quais dávamos a vida. Somos também tios, avós, primos, amantes e amigos dos que nos ajudam a creScER. Tantos outros somos somos que tanta gente fazemos ser! 

Podemos sentir-nos tão mais internamente ricos quanto mais laços de afecto temos nutridos (e fazemos nutrir). O preço inevitável a pagar por esta experiência que justifica a nossa existência – o amor – é a tal experiência – o Luto (a dor pelo desaparecimento de quem deixa de ser do nosso ser). O luto é o preço a pagar por amarmos. Parece apocalíptico mas a equação é fácil e julgo que estaremos todos de acordo de que quanto mais amamos, mais dor sentimos quando alguém nos morre. Patologizar esta experiência universal pode ser perigoso na medida em que ter-se-ia que redefinir o amor como um agente patogénico. Um luto pode ser complicar-se bastante, considerando-se um luto complicado, mas numa visão humanista e humanizada não deve ser denominado de patológico.

Na angústia da dor que lhe aperta o coração, no tráfego caótico das lágrimas que lhe congestionam o rosto, no movimento pesado que parece ter o efeito de um íman ao levar-lhe constantemente para a cama, lembre-se: Está a sofrer! E está a sofrer porque ama e foi amado. Está a sofrer porque quer continuar a amar e a ser amado!

E mesmo que esteja eufórico – lamento desapontá-lo - está a sofrer porque ama e foi amado. Está a sofrer porque quer continuar a amar e a ser amado.
Tanto o excesso como o défice escondem uma falta imensa de contacto, de afecto.

Cuide da sua dor.

O objetivo de um espaço terapêutico no luto é o de acompanhar a pessoa num espaço de segurança, confiança, respeito e de não patologização, no processo difícil de aprender a viver sem o ente querido; acompanhar na adaptação a uma realidade em que nada volta a ser o mesmo, nem sequer o próprio, sendo importante que a pessoa integre, ao seu ritmo, a perda na sua nova identidade para que o luto não se complique e origine situações de maior mal-estar.



André Viegas
Psicólogo Clínico e Terapeuta do Luto
O Canto da Psicologia





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